A validade dos bens de consumo é curta, tal como as conexões amorosas contemporâneas. Alienados, sem questionar, seguimos tendências fugazes, consumindo novas tecnologias e produtos que prometem satisfação imediata. Entretanto, o prazer que acompanha o produto adquirido se dissipa ao consumi-lo ou na possibilidade de haver outro mais atual, mais bonito ou mais potente. São carros, sapatos, celulares e, entre outras coisas, pessoas.

Na visão do sociólogo e filósofo Bauman, grande explorador da liquidez na qual vivemos, a era dos amores líquidos transforma humanos em mercadorias, baseada na dinâmica do consumismo. O imediatismo, superficialidade e fugacidade que permeiam o consumo de bens materiais também incidem na forma atual de nos relacionarmos.

Nos aplicativos de relacionamento, a aparência é o principal, e por vezes único, critério de avaliação, prestigiando cada vez mais os aspectos superficiais e efêmeros, em detrimento dos subjetivos e sólidos.

Os recursos tecnológicos favorecem o encontro entre pessoas: mais oportunidades de sexo e uma maior variedade de opções contribuem para a dificuldade em manter, ou até mesmo desejar, relacionamentos duradouros. Em uma época onde é possível selecionar em uma vitrine humana na tela do smartphone quem nos agrada, a facilidade de se conectar com várias pessoas aumenta. Mas na velocidade que a contemporaneidade exige, não há tempo para se vincular a alguém.

Em contrapartida, a preferência pela interação virtual prejudica e empobrece as habilidades sociais no convívio real.  Não são poucos os que saem do bar sem falar com a pessoa que julgaram interessante e vão tentar se aproximar dela através das redes sociais. A abordagem “cara a cara” se tornou ameaçadora e indesejada.

“Esquemas”, “crushs” ou o já ultrapassado “peguetes” se acumulam tais quais objetos. Menos encontros de pessoas, mais encontros de corpos. A busca é pela satisfação imediata e constante, evitando-se ao máximo a frustração. No lugar de vínculos, há conexões convenientes que são facilmente desfeitas depois de consumidas. As pessoas não se envolvem, mas se conectam e se consomem.

Consumir implica possuir algo e usar tudo o que ele pode oferecer, sugando-o até onde for capaz de satisfazer. Após esgotá-lo, descarta-o e adquire-se outro. Em nada tem a ver com se envolver e se vincular, construindo e cultivando mutuamente uma relação.

O mundo virtual é uma ótima opção para quem busca prazer sem envolvimento emocional. Entre outras vantagens, ele anula o risco de tentar uma troca de olhares, tomar coragem para se expor, iniciar uma conversa e ser rejeitado em público.

Por intermédio das tecnologias, a comunicação se tornou mais acessível e rápida, contudo mais rasa e frívola – condição necessária para ser também possível sair rapidamente e sem esforço de qualquer conexão que já não satisfaça. Convém que a ligação entre os indivíduos seja fluida, facilitando o rompimento ao vislumbrar uma oportunidade considerada, precipitadamente, melhor.

O termo “conexão”, segundo Bauman, é muito apropriado, uma vez que representa uma ligação passível de desconexão e que não remete a um compromisso, produzindo um laço frouxo que pode ser desfeito conforme a conveniência. Se algo não agrada, é só desfazer o “like” ou bloqueá-lo. A política de troca também é muito simples: em vez de resolver os impasses da relação, troque por outra pessoa mais divertida, mais bonita ou descolada, que prometa mais satisfação – até a primeira divergência.

Na atual sociedade acelerada e singular, firmar um compromisso pode soar como tolice, pois ameaça as inúmeras possibilidades disponíveis. Escolhendo uma, abdica-se das outras opções e logo ali se pode descobrir que havia algo melhor. Embora se conecte a uma pessoa legal, a análise das outras opções continua, submersa na dúvida de ter feito a escolha mais satisfatória, e que exija menos investimento.

Neste contexto, a falta de intimidade não permite que o indivíduo saiba o que esperar do outro. Não se sente pertencente àquela relação e, inseguro, cresce a necessidade de manter a defensiva, não se expor e não investir no outro. Tal condição permeada de insegurança promove um conflito de desejos que, de um lado, quer reduzir a distância e, de outro, se manter afastado.

Sabendo acertar a dose, os recursos tecnológicos oferecem diversos benefícios. Mal dosada está a tolerância à frustração e o que falta é disposição para investir e, de fato, encontrar o outro e reconhecê-lo sem a incumbência de nos satisfazer. Relacionar-se exige diálogo, compartilhamento, empatia e construção. Sim, se relacionar dá trabalho! Mas ao evitarmos as possíveis dores de se envolver com alguém, mergulhamos no triste e doloroso vazio de uma existência solitária.

Imagem de capa: Shutterstock/WilmaVdZ

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Marciane Sossmeier
Psicóloga clínica com enorme interesse nos processos e mecanismos envolvidos nas interações e comportamentos humanos. Com orientação psicanalítica, mantém uma abordagem integral do ser humano e sua subjetividade. Graduada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pós-graduanda em Dinâmicas das Relações Conjugais e Familiares pela Faculdade Meridional (IMED). .

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