Os reflexos do nosso conhecimento

Tenho costume de escrever sobre fatos que acontecem, relatos que me chegam ou até novelas, filmes e séries que me permitem criar metáforas de entendimento sobre nós, já que são reproduções – por vezes mais intensas – das nossas vidas.

O texto de hoje tem como referência uma das cenas do 12º episódio da 6ª temporada da série norte-americana FRIENDS, famosa nos anos 90. Quem conhece a série sabe que ela discute e tange vários assuntos em um só episódio, e um desses assuntos me remeteu a um debate que já vinha me instigando. Deixo no final da publicação o link do vídeo em questão.

A cena diz respeito à disputa entre Ross (David Schwimmer) e Chandler (Matthew Perry) pela autoria de uma piada que foi publicada em uma das edições da revista Playboy. Os dois afirmam, durante todo o episódio, serem os donos da piada e têm até seus motivos pessoais para tal certeza. No final do episódio, Mônica (Courtney Cox), irmã de Ross e namorada de Chandler, é convocada pelos dois para decidir quem é afinal o dono da piada. Após escutar os dois e seus motivos para criação da mesma, Mônica questiona a importância daquela piada, já que insulta mulheres, médicos e macacos e afirma que os dois deveriam se envergonhar de disputá-la. A cena termina com Ross e Chandler negando a autoria da piada.

Olhando a cena, comecei a pensar sobre o passado e os reflexos que se criam sobre ele. Como ele pode nos dividir em dois personagens opostos que não conversam. Encontramos dificuldade em aceitar nossos erros e entender que é através deles que construídos novos caminhos e descobrirmos quais comportamentos não queremos repetir. Muito dessa negação pode se dar pela premissa de que nosso passado nos define e que é determinante o suficiente para moldar quem somos e prever futuros comportamentos. Por vezes, baseados nessas construções estigmatizadas, negamos nossas falhas, com medo de que se tornem padrão para tudo que fazemos. Guardamos nossas vivências a sete chaves e preferimos não olhar para os nossos erros. Nos assustamos, por vezes, com a simples ideia de relembrá-los. E isso pode ocorrer por mecanismos de defesa, que nos protegem de lembranças traumáticas, dolorosas ou vexatórias.

Ao mesmo tempo, é curioso como nos orgulhamos de nossas conquistas, principalmente quando percebemos que batalhamos muito para consegui-las. Que mudamos e adquirimos conhecimentos maiores dos que tínhamos quando apenas sonhávamos com tais marcos. Nesses momentos, não é difícil dar ao passado lugar de destaque e orgulho.

Nesse emaranhado, nos vemos em um lugar silencioso que nos amedronta, já que passamos a negar fatos importantes ou transformá-los em fantasmas que nos assombram. Não falamos da dor. Esquecemos do medo. Negamos os erros. Medicalizamos a angústia. Não conseguimos encarar nosso passado de frente e entender que foi errando que aprendemos a acertar. Não encaramos nossos fracassos, e por tal, não entendemos que muitos deles também nos abriram portas que nos levarem aonde estamos hoje. É justamente o fato de podermos escorregar que nos permite levantar e seguir em frente, sabendo olhar melhor os caminhos que tomamos. Assim como o passado pode nos moldar, principalmente quando não olhamos para ele, ele é capaz de nos fazer enxergar o que não faz sentido em nossas vidas.

Se somos quem somos hoje, isso se deve a quem fomos anteriormente. E nos momentos mais tortuosos e de caos interno, é importante que consigamos olhar para todas as pedras que encontramos em nosso percurso e os terrenos arenosos que atravessamos para chegar aonde queríamos. Curiosamente, o estímulo também pode ser encontrado naquele passado que não é tão bonito assim e que só depende de nós para que passe a ser entendido. Somos o resultado de nossas lutas, nem sempre vitoriosas, mas carregadas de sabedoria. Algumas cicatrizes ficarão, mas só elas. Afinal, só tem cicatrizes aqueles que sobreviveram.

FRIENDS 6ª temporada, 12º episódio: https://www.youtube.com/watch?v=DVq94nRrj5s

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Caroline Socha
Caroline Socha é Psicóloga, mora em Florianópolis/SC, faz especialização em Gestalt Terapia, atende em clínica psicoterápica e atua em projetos de capacitação e extensão com mulheres em comunidade.



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