Casal feliz não tem divergências entre si e através de um único olhar sabe o que o outro está pensando. Fazem tudo juntinhos, são o melhor amigo um do outro e combinam até no gosto musical. A agenda e as preferências de ambos se encaixam perfeitamente, como seus corpos no sexo que jamais cai na rotina. Esse casal ideal vive no imaginário de muitos, mas na realidade da vida a dois as coisas não são exatamente assim.
Não são poucas as influências ditando o modelo perfeito de casal. O romance nos livros, cinema, novelas e músicas provocam suspiros e inspiram o desejo de encontrar nossa metade da laranja – o parceiro que complete aquilo que nos falta para vivermos felizes para sempre.
Os mitos acerca do relacionamento ideal criam expectativas equivocadas sobre o parceiro e o dia a dia em casal, produzindo uma vasta lista de empecilhos e frustrações na vida amorosa. Insatisfeitos com a ausência dos padrões idealizados, rompemos com relações que poderiam ser fortalecidas e amadurecidas, e seguimos na busca pelo par perfeito.
Em geral, dois pensamentos imperam: as semelhanças entre duas pessoas garantem a consolidação do casal ou são os opostos que se atraem e as características distintas servem para complementar o outro. Nem oito, nem oitenta. As semelhanças fortalecem as afinidades e a intimidade, enquanto as diferenças contribuem para ampliar e enriquecer as vivências e o universo do casal.
Acreditar que há alguém que nos completa requer que nos consideremos seres parciais, incompletos e dependentes. Não encontrando quem nos preencha, ficamos presos na sensação de que algo nos falta, fadados à tristeza da incompletude. É evidente que prosperamos através do convívio com outras pessoas, mas é doloroso demais depender de alguém que não nós mesmos para nos sentirmos plenos.


É injusto delegarmos ao outro a responsabilidade por nossa felicidade ou acreditarmos que é nossa incumbência fazê-lo a pessoa mais feliz desse mundo. A vida a dois é sadia e gostosa quando cada um está satisfeito consigo mesmo, consciente de suas capacidades e limitações. Pessoas plenas engrandecem a vida uma da outra, sem amargurar esperando que o prazer de viver seja proporcionado pelo outro. Sem cobranças – conscientes e inconscientes – estão livres para investir no compartilhamento de experiências maravilhosas que a conjugalidade promove.
Outro penoso engano é pensar que não há discordâncias entre parceiros satisfeitos com a relação. A premissa de que é preciso concordar em tudo impede o espaço para a individualidade e despreza a subjetividade de cada um.
O conceito de que casal feliz nunca tem conflito precisa ser questionado. Os conflitos são inerentes às relações humanas mais íntimas à medida que estas se desenvolvem. Casal sadio amadurece junto e tem discussões construtivas, seja sobre o melhor destino para as férias ou a criação dos filhos. As brigas devem ter o objetivo de fazer com que os parceiros se conheçam melhor, exponham e esclareçam suas percepções para alcançarem um consenso sobre questões comuns de casal, além de identificarem opiniões diferentes que valem tanto quanto as suas e necessitam ser respeitadas como parte da individualidade do parceiro.
Outro mito bastante comum é a existência de uma conexão mágica que faz com que o parceiro ideal perceba nossas necessidades e adivinhe o que queremos.

O convívio, companheirismo e empatia possibilitam que saibamos muito sobre nosso parceiro, contudo, por maior que seja a afinidade, o amor não nos transforma em telepatas. Por vezes, nem nós mesmos identificamos o que sentimos ou desejamos. Mesmo verbalizando aquilo que pensamos, corremos o risco de não sermos entendidos. Imaginar que o amor torna possível ler a mente do companheiro pode trazer muitos desencontros na relação.
Há também a crença de que casais felizes fazem tudo juntos e sabem de tudo, um sobre o outro. É equivocado associar a felicidade conjugal ao compartilhamento absoluto de seus pensamentos e à participação de ambos em todas as atividades. Entre outros benefícios, preservar a individualidade deixa os momentos a dois mais intensos e prazerosos. Vale advertir que não devemos considerar a frequência com que casais publicam em redes sociais como um termômetro preciso que revela a qualidade do relacionamento.


O relacionamento amoroso é um aspecto importantíssimo da vida, mas não o único, tão menos é a única fonte de alegria e prazer. Desconsiderar e não investir em outros aspectos da vida é tão nocivo para a saúde do casal quanto agir de modo displicente com a relação.
Se há grandes fantasias sobre como deve ser o amor entre um casal, os mitos sobre o sexo são colossais e podem gerar muita angústia nos cônjuges. É necessária uma incrível maestria para manter constante uma vida sexual altamente ativa e satisfatória conciliando as inúmeras tarefas diárias, sem deixar nada abalar o interesse sexual. Mesmo os casais felizes não são imunes ao cansaço e stress do cotidiano, nem estão livres de precisar driblar a presença dos filhos para curtirem momentos privados. Os casais saudáveis encontram meios para compensar a intensidade inicial com relações sexuais mais íntimas.
Reconhecer que o relacionamento longe de ser perfeito é mais comum do que se imagina e é considerado normal alivia a frustração e a pressão pela busca de um modelo que não corresponde à realidade. Os contos de fada encantam e são tentadores, mas é preciso adequar as expectativas ao mundo real. Flexibilizar as crenças e perceber a singularidade de cada união amorosa permite uma perspectiva menos ilusória. Valorizar o que há de saudável na relação e trabalhar na reforma dos elementos disfuncionais do casal é o meio mais eficiente para alcançar mais satisfação e desfrutar de mais e melhores momentos felizes a dois.

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Marciane Sossmeier
Psicóloga clínica com enorme interesse nos processos e mecanismos envolvidos nas interações e comportamentos humanos. Com orientação psicanalítica, mantém uma abordagem integral do ser humano e sua subjetividade. Graduada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pós-graduanda em Dinâmicas das Relações Conjugais e Familiares pela Faculdade Meridional (IMED). .

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