Para uma nova ética do cuidado em saúde mental

“A ética é a estética de dentro”.

(Pierre Reverdy)

Assistimos hoje a uma forte crise entre as tradicionais disciplinas dedicadas ao cuidado em saúde mental, tais como a psiquiatria, a psicologia e as diversas formas de psicoterapia. Entretanto, essa crise não é proveniente de um questionamento – proferido pela comunidade científica e/ou pela própria cultura – a respeito do modelo teórico que as sustenta. Na verdade, a crise revela-se na prática dessas técnicas, que, infelizmente, não vão mais ao encontro do alívio do sofrimento psíquico como no passado.

Atualmente, a dificuldade em ter acesso a um especialista da área vai desde o alto custo destes serviços (na clínica privada) ao pequeno número de profissionais disponíveis nas redes públicas (criando o fenômeno das filas intermináveis e dos meses de espera para, finalmente, obter um atendimento). No entanto, para os profissionais que assistem a esta falência pelo lado de dentro – isto é, para os profissionais envolvidos no cotidiano das instituições de saúde – uma crise mais fundamental e de alcance mais alarmante se revela: a crise nos valores que orientam cada atendimento, cada ação no cuidado para com os portadores de sofrimentos emocionais mais ou menos severos, de todas as idades.

Chamamos de Ética o conjunto de valores que norteiam a prática do clínico em saúde mental, ou seja, as interpretações de cada profissional no que diz respeito ao que deve ser buscado em um atendimento, o que se prioriza naquilo que se considera a efetividade deste atendimento e os recursos necessários para isso. Fica, portanto, evidente que o referencial ético, além de pessoal, é constituído de infinitos determinantes da própria subjetividade de quem atende, como, por exemplo, história pessoal, convicção política, concepção do humano, crenças espirituais… para citar apenas alguns. Não é nossa intenção aprofundar aqui uma análise de tais determinantes, o que requereria grande espaço de tempo e maior proporção de competência. Pretendemos, entretanto, apontar para alguns vetores que acreditamos que, se levados em conta, orientariam para práticas profissionais mais humanizadas, significativas e – por que não? – efetivas.

Em primeiro lugar, o atendimento em saúde mental só é concebível se pensado no interior de uma relação humana, que se estabelece entre quem oferece o cuidado e quem o procura. E uma relação humana só se inicia se uma pessoa se coloca disponível para acolher o “todo” do contato com o outro, pensado como outro ser humano como si mesmo. Infelizmente, já presenciei vários colegas de trabalho se referindo às pessoas em sofrimento que aguardavam atendimento como “fichas”, “pepinos”… para mencionar apenas algumas denominações. Para além da conotação ofensiva implícita nessas qualificações, note-se que se fala do outro como um objeto que causa um estorvo, que deve ser resolvido e retirado rapidamente de cena, como um incômodo. O profissional que se aproxima de um paciente com esse tipo de perspectiva não está disponível para entrar em uma relação humana, mas para resolver um problema, dar um diagnóstico, instituir uma terapêutica e tudo o que for necessário para eliminar o incômodo que aquela “coisa” produz, que demanda algum tipo de atenção. Certa vez, conheci um colega da área, deficiente auditivo, que “esquecia” de usar o aparelho para surdez durante longos intervalos durante o ano… forma bastante objetiva e eficaz de não escutar o outro.

Em segundo lugar, a relação humana não se dá com uma entidade abstrata, como seria o caso de um diagnóstico, de uma categoria. Em outras palavras: não posso me relacionar com um câncer, uma esquizofrenia, um idoso, um autista… não existe uma criança. Existe esta criança que neste encontro singular vai me colocar em contato com um abismo de sofrimento que me marcará para sempre – o ser humano que produzirá isso em mim tem nome, rosto, olhos, história, mãe e pai.

Por fim, reconhecemos de antemão a proporção e as implicações dos pontos que trabalhamos aqui: nosso desejo neste texto é tão somente iniciar – mesmo que pela centésima vez – o debate em torno dos referenciais éticos que norteiam a prática médica, psicanalítica e psiquiátrica de cada profissional, mas focar no caminho que nos separa de levar a sério esses imperativos do cuidado para com o outro que sofre.

 

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Maurício Silveira Garrote
Médico especialista em Psiquiatria Clínica pelo HC FMUSP (1985) e Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, com a tese "De Pompéia aos Sertões de Rosa: um percurso ao longo da Clínica Psicanalítica de pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia" (1999).



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