Participação do psicólogo antes do desastre.

O “Antes”, momento mais importante de um desastre, é quando se elabora o Plano de Contingência, com a discriminação de ações comuns a cada órgão, entidade ou indivíduo, a partir de uma hipótese de desastre. Este Plano resulta, preliminarmente, da análise de riscos, e, nele, devem estar previstas a responsabilidade de cada organização, as prioridades, as medidas iniciais a serem tomadas e como os recursos serão empregados. No caso da atuação da psicologia, o Plano deve recomendar as ações que cada Psicólogo poderá desenvolver.

Segundo a Política Nacional de Defesa Civil*, antes de um desastre devem ser realizadas ações de prevenção e de preparação. A prevenção representa a primeira fase da redução dos riscos** e engloba o conjunto de ações para evitar o desastre ou diminuir as suas consequências, enquanto a preparação reúne o conjunto de ações para melhorar a capacidade de a comunidade reagir frente ao desastre . (Brasil, 2010).

Nesse momento, devem ser adotadas políticas públicas (plano diretor, zoneamentos ambientais, legislação); execução de projetos de engenharia (diques, pontes, muros de contenção); análise de risco; ação dos sistemas de previsão (meteorológica e hidrológica) e de alerta. (Marcelino, 2008).

Sob a ótica de Ventura (2011), a etapa preventiva, o “Antes”, exige que o poder público tenha conhecimento das fragilidades sociais, ambientais, habitacionais, econômicas e estruturantes do seu território, a fim de se antecipar e, de forma intersetorial, se preparar e preparar os recursos e a própria população para os efeitos das contingências.

Para atender a uma situação de desastre, a formação das equipes de trabalho em Defesa Civil (profissionais e voluntários) prevê a preservação das condições de trabalho, principalmente na etapa de resposta uma vez que as pessoas convivem com o sofrimento dos atingidos e a urgência nas ações de resgate. Nesse momento, a participação do Psicólogo é de suma importância, pois poderá fornecer esclarecimentos sobre as características das situações de crise entre os atingidos, atender na crise e contribuir para a saúde mental da equipe.

Aqui vale retomar o que se denomina crise, considerando o entendimento do desastre como crise (visão sociológica dos desastres). Nesta perspectiva, uma situação de crise ocorre quando os recursos habituais das pessoas já não são suficientes para que elas possam lidar com o problema, caracterizando-se como estado temporal de desorganização. Neste caso, a primeira ajuda psicológica é a intervenção que se oferece a uma pessoa em crise, para reduzir as tensões provocadas pela situação vivenciada.

O conceito de crise pode ser entendido como um estado temporal de transtorno e desorganização, caracterizado pela incapacidade do indivíduo para abordar situações particulares utilizando métodos tradicionais. A ênfase é no transtorno emocional e o componente cognitivo do estado de crise está na violação das expectativas das pessoas sobre a sua vida, por algum trauma, cuja reconstrução emocional pode durar até três anos, a depender de cada pessoa. Este autor destaca cinco fases da crise: evento precipitante (corresponde à ocorrência de evento inesperado, de estresse ou trauma); resposta desorganizada (são apresentados sinais de afetação e de desorganização; fase de explosão (são apresentados impulsos agressivos ou destrutivos); fase de estabilização (as pessoas começam a se acalmar à medida que encontram recursos alternativos para o manejo da situação adversa); e fase de adaptação (as pessoas buscam se adaptar à nova situação para retomarem, de forma gradual, o controle sobre suas vidas) (Sociedad…2009)

Neste caso, os psicólogos poderão avaliar as limitações do pessoal de apoio; dialogar sobre limites e possibilidades subjetivas dos profissionais em geral; contribuir no treinamento dos voluntários; e reforçar a resiliência grupal da equipe, entre outros, lembrando a todos que durante um desastre, ao entrar em contato com a vítima, é necessário estar atento à entonação da voz; ao volume, velocidade, clareza e fluidez da fala; à forma empática de contato, realizando uma escuta eficaz.

Poderão, ainda, atuar junto a outros profissionais, na prevenção, desenvolvendo atividades como: sensibilização de autoridades e de outras pessoas; capacitação de pessoas residentes em áreas de risco, para percepção dos riscos de desastres; desenvolvimento de projetos educativos e de minimização de vulnerabilidades sociais; participação no mapeamento de áreas de risco e em ações de fortalecimento das relações comunitárias; desenvolvimento de ações orientadas à promoção de uma cultura de redução de riscos de desastres; orientação quanto às consequências de comportamentos de risco, importante estratégia na prevenção de desastres.  (Brasil, 2010).

*A Política Nacional de Defesa Civil (PNDC), aprovada, em 2004, representa o conjunto de objetivos que informam determinado programa de ação governamental e condicionam a sua execução com a finalidade de garantir o direito natural à vida, à saúde, à incolumidade, à segurança e à propriedade em circunstâncias de desastres. (Brasil, 2010).

**Redução do Risco de Desastres (RRD) visa reduzir os danos causados por desastres naturais como terremotos, inundações, secas e ciclones, por meio de uma ética da prevenção.

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Marina Lemos
Marina é de Salvador, Bahia, e morou em Londres por 5 anos. É psicóloga e concluiu o Mestrado em Gestão de Riscos e Desastres, em Londres. Deixou a cidade Londrina em agosto de 2015 para seguir outro sonho: tornar-se uma psicóloga nômade digital e morar em vários países da Ásia por um longo período de tempo. É amante da leitura, de viagens, da natureza e de psicologia. Atualmente, empresária proprietária da TOP Terapia Online, empresa especializada na prestação de atendimento psicológico online para brasileiros que moram em qualquer parte do mundo.



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