Perdão não é sentimento, é decisão.

A menos que você roube as pessoas, e se identifique com o crime, sem dúvidas você repudia o meliante que te leva a bolsa quando o semáforo está fechado, ou que te subtraí o carro no estacionamento do shopping.

O crime e o criminoso estão inseridos dentro de um padrão de conduta inaceitável socialmente, digno de repulsa, de ódio e de condenação.

Em outro cenário, se eu lhe perguntar qual sua posição quanto à traição conjugal, principalmente se você aposta todas suas fichas em um relacionamento afetivo, e nele canaliza seus sonhos, suas energias, economias e o planejamento da sua vida, invariavelmente sua resposta será de repúdio, inconformismo, nojo.

Pois bem, assim como o comportamento do ladrão e do traidor, vários outros atores sociais estão sujeitos a nos despertar para uma infinidade de sentimentos ruins, que comumente nos leva à ânsia de vingança, revanche, cobrança do débito, desejo de justiça, entre tantos outros.

Quando o ladrão age ele nos tira um bem material, que pelo direito conferido por investimento financeiro, é nosso; assim como na ação de traição conjugal, a parte infiel tolhe a segurança e dilacera com a reserva moral daquele que idealiza a fidelidade do parceiro ou da parceira.

Para estes dois casos, e outros tantos de desdobramentos análogos, existem dinâmicas que vão de encontro à nossa segurança, ao nosso bem estar ou ao nosso direito de propriedade. Para todas estas situações, há apenas duas maneiras de enfrentamento: A Incriminação ou o Perdão.

Quando fiz o questionamento sobre a possível reação diante da perda causada por um ladrão, também já fiz a provisão do sentimento de repudia da possível vítima. Na maioria dos casos, esse sentimento negativo transcende à revolta da pessoa lesada, explico:

Em mais de onze anos trabalhando na área de Segurança Pública, tive oportunidade de presenciar por incontáveis vezes, o encontro de um criminoso capturado no ato do crime com sua mãe. Ao ser conduzido para o Distrito Policial na condição de flagrante, das vezes em que as ocorrências policiais foram acompanhadas pelas mães dos autores, foi possível notar um sentimento de luto na vida dessas senhoras.

Ao verem seus filhos algemados, e encaminhados para um estabelecimento prisional, essas mulheres expressavam sentimentos de perda, de ingratidão e de traição pelo fato dos valores, em muitos casos ensinados, não serem absorvidos e colocados em práticas por suas crias, tornando vão o investimento emocional, físico e financeiro dessas mães até então.

Nestes momentos, quem experimenta o sabor da ira, da tristeza e da perplexidade está diante do contato com si mesmo. Pode se deslocar dos valores e concepções que são diariamente introjetados socialmente, e experienciar vivências genuínas, por mais negativas que se apresentem. E neste momento está instalado um  dilema: Incriminar ou Perdoar.

Na maioria dos casos, a vítima hipotética do nosso roubo vai incriminar. E a mãe do delinquente? O que vai pensar do filho que gerou e cuidou? Vai amaldiçoá-lo e lhe desejar o cárcere perpétuo por ter caminhado na contramão dos seus ensinamentos? Muito que provavelmente não! Por mais quebrantado que esteja o coração, e por mais invadida pela tristeza e sentimento de injustiça pela ingratidão do filho, ela vai perdoá-lo. Essas são duas facetas de um mesma tragédia…   

O perdão não é um sentimento, e sim uma decisão. Ele brota do juízo que fazemos de uma profunda experiência organísmica, a qual dita a maneira mais autêntica de expressarmos nossos afetos, como por exemplo, a mãe que visita o filho na cadeia e o beija na testa; a mulher que perdoa a traição do marido em nome da paixão que a move e do amor aos filhos do casal; o líder espiritual que ouve as desventuras do fiel e o acolhe, perdoando-o.

O momento do perdão pode ser considerado um dos poucos em que podemos nos desvencilhar de padrões rígidos, adotados em várias instâncias da vida, e mesmo diante da desaprovação social, renunciamos ao óbvio, experimentamos escutar nossos sentimentos mais íntimos e aceitamos enfrentar todas as consequências, e por extensão, todas as delicias contidas nas entrelinhas do perdão.

Em instâncias mais profundas, o perdão genuíno não é fácil de ser conferido, pois sugere um engajamento visceral, ditado por uma  afetividade apta a isentar de julgamentos o indivíduo que cometeu a falta, contudo, quando alcançado ele pode trazer em seu bojo a paz de espírito e a evolução do caráter humano, prevendo condições propícias á autorrealização, tanto de quem perdoa quanto de quem é perdoado.

Nesta linha, perdoar corresponde ao livramento das amarras rígidas da própria experiência, e sugere à abertura ao próprio desejo interno de assim dizer: “Que se dane o mundo, não vou carregar a dor e a responsabilidade de te odiar”. Não odiar é um bom caminho para qualquer coração, em qualquer época!

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Emerson Puche Bueno
Psicólogo Clínico e Social, pós-graduando em Intervenções Psicossociais e Políticas Públicas. CRP 06 / 131902.



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