Precisamos conversar sobre: Alienação Parental

Por Debora Mendes de Oliveira

A infância é um período de construção da personalidade e também de dependência afetiva, intelectual e psicológica, o que torna os menores extremamente maleáveis e vulneráveis à Síndrome de alienação parental.

No caso das crianças menores, as influências provêm essencial mente do ambiente familiar. É de esperar que nele a criança esteja protegida, mas ela também pode ser manipulada e até destruída psicologicamente por um dos genitores, tentando, num contexto de separação conflituosa, condicioná-la para que rejeite o outro genitor sem a menor justificativa.

A síndrome de alienação parental foi citada pela primeira vez por Richard Gardner, em 1986. Psiquiatra da Universidade de Columbia, ele começou a perceber alguns comportamentos em seus atendimentos de criançasde pais recentemente divorciados. Ele se referia às perturbações psicológicas de que é acometida uma criança quando um dos seus pais, faz de maneira implícita, aquilo que ele chamou de “lavagem cerebral”, visando destruir a imagem do outro genitor.

A alienação parentalproduz os mais variados transtornos na criança vinda de pais com comportamentos considerados patológicos ( geralmente narcisistas)  e por causa disto foi proposto que fosse incluído como uma patologia no DSM-V. Psiquiatras e psicólogos a definiram como ” perda do vínculo parental”, sugerindo a seguinte definição:  ” Condição psicológica particular de uma criança ( normalmente cujos pais estão envolvidos numa separação muito conflituosa) que se alia fortemente a um dos genitores ( o preferido) e rejeita a relação com o outro ( o alienado) sem razão legítima.”

Entretanto a a atual versão do DSM-V dispersou o diagnóstico de Alienação Parental (ou Síndrome de Alienação Parental) nas seguintes classificações:

V61.20 (Z62.820)- Problemas de relacionamento entre pais e filhos: Este diagnóstico explica que os problemas relacionais entre pais e filhos podem estar associados a prejuízos nos campos comportamental, cognitivo ou afetivo:

comportamentais: controle parental inadequado, supervisão e envolvimento com a criança; excesso de proteção parental; excesso de pressão parental; discussões que se tornam ameaças de violência física; esquiva sem solução dos problemas.

cognitivos: atribuições negativas das intenções dos outros; hostilidade contra ou culpabilização do outro; sentimentos injustificados de estranhamento.

afetivos: tristeza, apatia ou raiva contra o outro indivíduo da relação.

Grupo 995.51 – Abuso psicológico da criança: Este diagnóstico foi inserido recentemente no DSM-V. É definido como “atos verbais ou simbólicos, não acidentais, por pai ou cuidador, que têm um potencial razoável para resultar em danos psicológicos significativos para a criança.”

Formas de alienação

Durante o processo de divórcio, alguns pais entram em guerra contra o antigo cônjuge, usando inconscientemente os filhos como arma para ferir o outro. Em geral, isso começa antes da separação, com uma chantagem envolvendo a criança: Se você me deixar, não verá mais as crianças!” Conseguir a guarda tornou-se uma questão importante no processo, e aquele ou aquela que se sente traído ou parceiro pode fazer uma tentativa de recuperar poder denegrindo o outro diante dos filhos.

Um genitor que aliena tem como objetivo, portanto, afastar o filho do outro genitor e de sua família. Pode fazê-lo controlando as trocas com grande rigidez quanto aos horários de visita recusando-se a chegar a um acordo em caso de problema prático ou alterando constantementeas datas de férias para criar dificuldades o outro genitor. Pode também eximir-se de transmitir informações escolares ou sobre os hábitos de lazer. O objetivo é controlar a criança, mas também o outro genitor.

O dinheiro muitas vezes toma a frente. A criança pode ouvir que não está certo que vá a casa do pai ( mãe), pois ele (ela) não pagou a pensão alimentícia. O menor também pode ser manipulado e pressionar o outro genitor para que gaste mais: “seu pai diz que não tem dinheiro para mandá-lo esquiar, mas na verdade está cheio do dinheiro”.

O genitor que aliena também pode apelar para a sedução, sobretudo com adolescentes, prometendo presente, concordando com todas as exigências ou se eximindo de estabelecer limites.

Mas a manipulação mais eficiente de uma criança ainda é a chantagem emocionalpara conseguir seu amor exclusivo. O genitor se mostra extremamente infeliz, posa de vítima do ex-cônjuge eaté ameaçar se matar. Como os filhos têm espontaneamente um impulso reparador, apoiam aquele ou aquela que parece sofrer mais com a separação, criticando o suposto responsável por esse sofrimento.

O que fazer?

Quando tem início a alienação parental, é essencial reagir com rapidez, pois quanto mais o tempo passar, mais a criança ficará em simbiose com o genitor que aliena- que também conta com a lentidão da justiça – ao passo que o outro se torna um estranho.

É essencialmente necessário um acompanhamento psicoterapêutico com a criança . Os psicólogos devem ser prudentes, cuidando de não estigmatizar o genitor problemático ou tomar partido nesta separação conjugal pois isto só irá prejudicar a criança.

O psicólogo também deve estar atendo a queixa da criança e ajudá-la neste processo levando-a a entender que ela não precisa ter que decidir entre um dos pais , pois isto acaba gerando na criança uma extrema tensão e uma grande angústia.

Os pais devem ser assistidos por outro psicólogo e quando não for possível um acordo um juiz pode e deve mostrar-se mais diretivo com os pais. Cabe a ele tomar medidas quando um genitor é abusivo e disser à criança que conviver com os dois genitores e respeitá-los é normal é aceitável, fazendo assim com que a criança se livre do peso ( que não é sua) da decisão de tomar partido de um dos pais.

Referência

Gardner, R.A., The parental alienation syndrome. Creative therapeutics, Cress Kill, NJ, 1992 2 edição,1998.

Debora Mendes de Oliveira é Psicóloga sob o registro CRP 06/123470

Compartilhar
Debora Mendes de Oliveira
CRP: 06/123470. Psicóloga clínica (UNIP 2014), com ênfase psicanalítica, com experiência em atendimento voltado para abuso sexual, transtornos psiquiátricos tais como depressão e ansiedade, compulsão por internet e compulsão alimentar. Nas horas vagas é escritora por diversão.



COMENTÁRIOS