Precisamos falar sobre o peso das emoções.

Um dia uma amiga me procurou, queixava-se de dificuldade para emagrecer. Passava por um período conturbado, separando-se do marido, recebia poucas e parcas notícias dos filhos que estudavam através de intercambio no exterior. O sobrepeso a estava atormentando. Depois de muitas tentativas mirabolantes e dispendiosas para emagrecimento, resolveu como última opção: cirurgia bariátrica. O médico aconselhou-a que engordasse mais vinte quilos para alcançar o perfil e a indicação cirúrgica.

Existem muitos fatores que atuam em conjunto levando um indivíduo a aumentar de peso ou à obesidade. Ex. alterações hormonais, genéticas, ambientais. No bojo destas causas estão as questões psicológicas seja como efeito e/ou causa. Há inúmeras pesquisas indicando importantes interferências das perturbações psíquicas na gênese da obesidade. Dificuldades afetivas em pessoas vulneráveis, compulsão no comportamento alimentar. Indivíduos ansiosos, depressivos, estressados, que passam por situações de frustrações, rejeições, insatisfações além de seus recursos pessoais são propensas a desenvolver obesidade.

Conflitos emocionais para alguns indivíduos pode ser um fator que os leve a ingerirem em mais quantidade alimentos altamente calóricos, como doces e em especial o chocolate, aumentando a secreção da serotonina, hormônio que causa sensação de prazer e bem-estar, melhorando assim seu sistema de recompensa.

Outro importante exemplo, dos efeitos das emoções no organismo é a produção do hormônio cortisol, em mais abundância durante fases de intenso estresse, aumenta a produção de aminoácidos, que o organismo transforma em açúcar e, posteriormente, em gordura. Neste ciclo adoecido, ocorre a retenção de líquidos e acumulo do tecido adiposo. Aumentando ainda mais a instabilidade emocional e danos à imagem física.

Assim, recorre-se a tratamentos mágicos, hormônios emagrecedores, drogas prescritas por especialistas, fórmulas e soluções milagrosas, dentre elas “ cirurgia bariátrica” emergencial.

Nesta aventura pelo desconhecido, pode ter lugar ao tão conhecido “efeito sanfona”, ora muito gordas, ora muito magras. Um possível distúrbio no comportamento alimentar, fatores reconhecidamente emocionais, como Bulimia, Anorexia ou compulsão alimentar. Um substitutivo ao afeto perdido e ao pseudo alívio através do excesso, “preencher” o vazio emocional.

“A cirurgia bariátrica reúne técnicas destinadas ao tratamento da obesidade e das doenças associadas ao excesso de gordura corporal ou agravadas por ele” (Fonte: Saúde Plena).

No entanto para submeter-se à cirurgia bariátrica o indivíduo precisa compreender que sua vida passará por uma série de mudanças, e que precisará preparar-se psicologicamente para experiencia-las. Provavelmente, até chegar a decisão de redução de estomago, percorreu diversos lugares, dietas para redução de peso. O emagrecimento, para algumas pessoas, a tomada de decisão para a cirurgia bariátrica pode estar permeada de expectativas, muitas coerentes, mas outras disfuncionais ou irreais.

Muito mais que perder peso, é estar bem consigo mesmo. O tratamento adequado não deveria envolver somente a redução de peso, trata-se de uma mudança de comportamento que deveria começar de dentro para fora. Emagrecer envolve fatores além de fazer dietas, praticar exercícios e fazer uso de medicamentos. Trata-se de estar pronto para alterar o estilo de vida. E o significado da ingestão de alimentos. Das reuniões de família ou de datas festivas. Uma reeducação gradual, mas profunda. Envolvendo mudança na estrutura emocional, e não somente para redução das calorias por determinado tempo.

O tratamento psicológico não pode nem deve ser reduzido a um laudo possibilitando a realização da cirurgia, mas envolver o indivíduo no sentido de proporcionar-lhe maior compreensão sobre a importante decisão que irá mudar radicalmente sua vida. Assim, haveria necessariamente que dar continuidade as sessões possibilitando a reestruturação cognitiva e consequente reestruturação emocional. Aprendendo a desenvolver recursos e novas habilidade para lidar com suas questões, ampliando assim a consciência sobre si mesmo, reduzindo a ansiedade e tratando da compulsão

Há que possibilitar ao paciente a compreensão de que a ingesta de alimentos, de forma descontrolada, seja apenas o sintoma de algo maior, desencadeador de alta ansiedade que leva a compulsão. Perceber que aliviar a angustia buscando refúgio na comida, desencadeia um ciclo que gera mais angústia, pela culpa. O peso das emoções descompensadas é que desequilibram a mente e o corpo. Assim, a correção estética, não deveria ocupar a posição central, mas um complemento a aliviar ansiedade, gerar autoestima e principalmente melhorar a saúde como um todo.  Mas, o paciente só se engajará na psicoterapia se for o seu desejo.

Há estudos questionando uma possível relação entre a cirurgia bariátrica e a depressão, dentre outros transtornos. Uma avaliação psicológica minuciosa, anamnese detalhada, apontará a existência de transtornos prévios à cirurgia. É preciso significar as reais necessidades da cirurgia e o “start” para doenças mentais. Ainda que o laudo negativo não atenda as expectativas do médico cirurgião.




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