Psicanálise: ontem e hoje

Já há algum tempo, diversos psicanalistas formulam uma questão basilar de suma importância: a psicanálise de ontem é a mesma de hoje? Atreladas, estão outras inquirições fundamentais: Como se configura a clínica dos novos tempos? As formas de sofrimento psíquico mudaram? Quem é o sujeito do século XXI?

Para algumas linhas mais ortodoxas, pouco ou quase nada mudou desde Freud e das diretrizes psicanalíticas da transição do século XIX para o XX. Todavia, parece-me no mínimo ingênuo, ou mesmo tapado, acreditar que as transformações radicais do último século não influenciaram nas psicopatologias estruturais. Portanto, compartilho daqueles que consideram válido repensar a atuação do psicanalista hoje.

Tendo isso em vista, gostaria de recontar uma história que ouvi do psicanalista e médico psiquiatra Jorge Forbes, há algum tempo atrás, para ilustrar a situação.

Um homem estava em sua casa, em São Paulo, tarde da noite, quando ouve a campainha tocar. Era seu filho de 18 anos, que havia esquecido a chave de casa, acompanhado da namorada, de talvez 17 anos. Imediatamente, o pai sugere que a porta fique aberta para que o filho possa pegar o carro e levar a garota. Entretanto, o jovem adverte: “Não, pai, hoje vamos ficar aqui mesmo”, já entrando pela casa com a moça. O pai, totalmente desconcertado e sem saber o que fazer, fica ali, do lado de fora da casa, de pijamas, atônito com a situação. “Como assim ficar em casa?”, pensa ele. Sem querer, deixa que a porta se feche e acaba trancado para o lado de fora.

Ainda mais embaraçado, recorre ao segurança da rua. Conta-lhe o que aconteceu e pergunta o que fazer. A grande dúvida era se tocava a campainha de casa ou não. Finalmente, decide tocar para poder entrar. O filho abre a porta e pergunta: “Ué, pai, o que você está fazendo aqui fora?”. O pai responde, enrolando um pouco, “nada meu filho, aproveitei para dar uma volta e tomar um ar”. “De pijamas?”, replica o filho. “Claro, a essa hora não tem problema. Não tem ninguém na rua”, responde o pai.

A história, chistosa, porém muito séria, retrata um momento singular do laço social humano hodierno, a saber: o fato de que não existem mais respostas prontas para determinadas situações. Se antigamente um pai saberia exatamente o que fazer diante de absolutamente qualquer situação, hoje não há bula que prescreva o modo de agir diante do inesperado.

Forbes aponta, com isso, para a hipótese de um ser humano “desbussolado”, timbre dissonante da pós-modernidade.

Em um congresso da Associação Mundial de Psicanálise, ocorrido em agosto de 2004, Forbes comenta que, antes, a sociedade “pai-orientada” estava segura de suas posições e obrigações sociais. Agora, ao encarar uma nova disposição globalizada, tais saberes se dissolvem e as orientações outrora vigentes se encontram em desalinho.

A instituição familiar, que girava em torno da figura paterna, vê-se frente a um curioso momento no qual, para o filho ingressar, o pai se retira. Igualmente ocorre com outras agências de socialização, como a empresa, a escola ou a pátria.

Contudo, é preciso elucidar, isso não representa nenhum demérito ou degeneração – muito pelo contrário. Representa, antes, uma renovação sobre a qual temos a obrigação de refletir, principalmente no que tange à atuação do psicanalista. Não lidamos mais com saberes seguros e direcionamentos consolidados. Agora, enfrentamos algo da ordem de um inominável vindouro.

Basta verificar como os modelos antigos (para não dizer retrógrados) já não mais surtem qualquer efeito. A formação clássica de uma sala de aula, com o professor prelecionando um saber e os alunos, em fileira, quietos, ouvindo, só serve para empacar o desenvolvimento de qualquer aprendizado – a crianças de hoje simplesmente não compram mais essa ideia. As empresas formais, da hierarquia e dos empregados de terno e gravata, cederam lugar para ambientes descontraídos e mais horizontais – caso contrário, não há produtividade alguma.

Ademais, é interessante notar como as novas propostas do mercado acompanham o fluxo do devir. Os novos negócios carregam a insígnia das redes e do compartilhamento como forma de reintegrar os serviços. Não é preciso ter um seque automóvel para acumular a maior frota de transporte privado do planeta (como no caso do Uber). Tampouco é necessário possuir um apartamento para disponibilizar a maior e mais bem-sucedida rede hoteleira já vista (como no caso do AirBnB). Os exemplos continuam e se multiplicam.

Agora bem, como fica o psicanalista diante dessa nova realidade? Forbes, ainda no texto do congresso de 2004, sugere um rumo: “Se ontem se analisava para se compreender mais, para ir mais fundo, hoje se dirige o tratamento ao limite do saber: é a necessidade da aposta, na precipitação do tempo”. Nesse mesmo sentido, admite-se que não há qualquer segurança ou previsibilidade em uma dada ação, cuja análise possa garantir – antes, há o salto no risco e a assunção da responsabilidade do sujeito.

Todas essas considerações, todavia, são indicações, sugestões, propostas. Nem elas se configuram como qualquer tipo de conduta manualesca. Não há “modo de usar” da psicanálise de hoje. Há, isso sim, um inter-esse e uma atenção na escuta, por meio dos quais, quiçá, seja possível admitir que a práxis psicanalítica é algo em constante mutação, que demanda do sujeito sempre uma nova invenção.

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Luiz Fernando Fontes-Teixeira
Luiz Fernando Fontes-Teixeira é psicanalista e filósofo. Interessa-se pelo estudo das diferenças e pela crítica da cultura contemporânea.



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