Psicologia Clínica não é mágica, é ciência.

A psicologia clínica é sem dúvida, a mais conhecida pelo senso comum, muitos ainda associam a imagem do psicólogo àquele modelo tradicional de terapeuta que muito escuta e somente faz pontuações eventuais. Alguns conceitos permanecem consagrados na prática clínica: escuta, subjetividade, o sofrimento psíquico, a aceitação incondicional, o comportamento. Marcam profundamente a dinâmica entre o psicólogo e o paciente. O psicólogo é a figura de intermediação que propicia ao sujeito a descoberta de si mesmo. Em toda sua singularidade, com o objetivo de minimizar seu sofrimento, auxiliando-o, ouvindo-o, orientando-o através da descoberta guiada, caminhos capazes de proporcionar-lhe alívio emocional, autoconhecimento, ajustamento criativo, etc.

Todavia, sabe-se muito pouco sobre aquilo que ela não é; assim torna-se um assunto mais delicado tendo em vista as novas implicações que surgem com a descoberta de um novo sujeito envolvidos em suas mais modernas necessidades. A despeito do desabafo de uma amiga “ Não tenho necessidade de viver do mesmo jeito que todos vivem, de possuir a televisão mais moderna, o melhor tablet, o melhor celular, o carro mais caro, morar em um apartamento ou casa invejáveis. Não quero precisar de tanto para viver…” concluiu triste. “ Preciso disso para viver?…”.

Entre seus colegas de escola a revelação de si mesma a choca “ O estranho é que ninguém me convida para ir à biblioteca, revistaria, me oferece bons livros para ler. Passear a pé e ver o pôr-do-sol “… E é isso que me importa. “É isso que me interessa, sou estranha, deslocada, uma tampa sem panela…” finaliza “O que tem de tão estranho comigo? ”.

Oportuno esclarecer-se que toda a amplitude do fazer clínica não está restrita ao alivio dos sofrimentos por disfuncionalidade dos sujeitos que procuram auxílio. Mas, sobretudo, na promoção da saúde destes demandantes.

Seguindo este raciocínio, a psicologia clínica se debruça na necessidade de compreender os novos desconfortos psíquicos trazidos por estas novas formas de expressão, desta sociedade que desponta em suas nuances peculiares.Ou, uma leitura atualizada das necessidades que emergem desta cultura com necessidades, novas e formas de ser assistida. Porque sem essa compreensão é possível cair no uso de técnicas simples, que não ajudarão a trazer claridade  aos anseios que permeiam os problemas da experiência humana.

Zygmunt Bauman , conhecido sociólogo polonês, cujo fascinante trabalho, trouxe como ideia principal o conceito desta modernidade que se percebe diferenciada, e nas palavras do sociólogo traz em seu bojo a liquidez, termo por ele popularizado.

Podemos começar dizendo categoricamente que a modernidade líquida é a época atual. Explica com requinte a conjuntura destas relações e instituições hoje atuantes dentro de sua lógica de operações sustentadas por esta contemporaneidade.  A lógica do agora, do consumo fácil, da futilidade e da artificialidade, bem como do prazer pelo prazer. Evoca o imediatismo, a frivolidade das relações de consumo fácil e até ocasional. Se interessar utiliza-se caso contrário descarta-se, sem culpa, sem aviso prévio. Simples assim. Época classificada pelo autor como sendo de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e relações humanas permeadas por insegurança.

Marx e Engels vislumbravam a modernidade como o processo histórico que punha abaixo todas as instituições de outras épocas, como a família, a comunidade tradicional e a própria religião. Com a finalidade de questionar cada ponto da vida, o que não pudesse ser compreendido, ou que houvesse em si a falta de justificativa plausível seria descartado, ou realocando no projeto racional e iluminista suas características ainda aproveitáveis.

A modernidade vislumbrada desenraizaria o velho e o enraizaria no novo, ou o que pudesse ser proveitoso. Zygmunt Bauman vem para nos dizer que a configuração atual da modernidade é qualitativamente diferente daquela descrita acima e vigente até a década de 60. A modernidade líquida, nos dirá Bauman, é o momento em que os referenciais são liquefeitos e, assim, perdidos.

Quando diluidos tais referenciais, a vida passa a ser entendida como projeto individual. E quais são esses referenciais? Muitos deles foram solapados por uma crescente tendência ao consumo, à transformação das relações sociais em mercadoria, portanto, da própria identidade em mercadoria. Assim, nos pergunta a jovenzinha de parcos recursos econômicos. “ Quem sou eu nesta sociedade de consumo, onde meu valor está no ter e não no ser?”…

Bauman nos alerta sobre uma espécie de relações humanas chamadas -líquidas, definida como individualista, privatizada marcada por natureza transitória e volátil de relacionamentos voláteis. Estes indivíduos, estabelecem entre si, laços de afetividade precários , refletido no amor que não ouve, que não percebe a necessidade do outro, que não para em função da generosidade, que se fecha ao menor dessabor. É o amor que consome o outro, que não o aprecia, que é flutuante, sem responsabilidade para o outro e não raras vezes por si mesmo.

É evidente que esta mudança e modernidade são transitórias, mas tem afetado uma gama significativa destas novas gerações, que Bauman tão bem descreveu. A comprovação se dá ao checarmos as novas formas de linguagem, de comunicação destes indivíduos, seus neologismos, suas novas necessidades, seus contentamentos, seus adoecimentos, seus sintomas e doenças. Que atingem outras gerações que deveriam ser mais maduras emocionalmente.

A exemplo: nossos jovens em sua grande maioria não sabem mais escrever, parece estarmos assistindo o surgimento de indivíduos caracterizados por uma linguagem pobre , cuja marca mais visível é a inabilidade para descrever suas emoções e seus pensamentos. Um verdadeiro desafio para nós cujo material de trabalho é a análise verbal principal ferramenta, não única, mas importante. É patente a ausência de palavras para narrar seu mundo interior e seus descontentamentos. Parecem ter vindo ao consultório em busca de uma pílula mágica, um remédio rápido e eficaz e não apenas de alguém para entender e ajudá-los a compreender o seu desconforto mostrando como ele mesmo pode vir a ser seu próprio psicoterapeuta. De acordo com Galende “o sintoma surge da incapacidade de o sujeito de reconhecer e lidar com conflitos de sua existência”.

Quem ousar discordar destes valores atuais, ainda que pertença a esta mesma geração mais moderna, ou nascido a esta época. Embora destoe dela, acaba exposto a solidão, ou a sensação desta. Temida e odiada por todos, independentemente da geração que for. *Galende, ensina que nesta sociedade de consumo, o atendimento psiquiátrico ou doenças psicológicas ligadas à existência são a tônica atual. Ou seja, as pessoas muitas vezes ao relatarem suas queixas de desconforto físico, relatam seus sintomas para lidarem com os problemas de suas vidas (trabalho, profissão, família, filhos…chefes..enfim..) Também tendem a atribuir seus sintomas de problemas de convivência (casal, preocupações com as crianças, etc.). Conclui *Galende, Há pessoas que buscam ajuda médica para doenças improváveis, que existem só na preocupação de disfunção. É o medo de envelhecer nesta sociedade que vê o envelhecimento como uma doença, e assim precisa ser combatida.

Nesta mesma ordem e direção podemos concluir, que testemunhamos uma época caracterizada pelo uso medicamentoso para curar situações da vida cotidiana, parece que absolutamente tudo, tornou-se enfadonho, ou pesado, dificultoso até o que não seria considerado doenças como a menopausa, disfunções sexuais, envelhecimento, etc. Que poderiam ser tratadas sem necessariamente carregarem o peso de seres doenças. Em outras palavras, medicalizar a vida, ao invés de buscar-se recursos para aumentar a capacidade cognitiva e emocional para enfrentar as adversidades, opta-se pelo atalho, que parece ser tão mais fácil e eficiente.

Estas características desta sociedade volátil, líquida são ideológicas, medicalizam a vida cotidiana, tornando-se dependentes dos psiquiatras, da indústria farmacêutica e alvo de campanhas maciças de marketing. Estes últimos juntos, definem os parâmetros de normalidade e patologia.

Não seria o resultado do uso de drogas legais e ilegais perseguidas com o mesmo propósito? Gerar a ilusão de que os problemas não existem? Ainda que seja de desamor, desarmonia familiar etc… Deixar de ser quem se é e não ser, ou ser outro”, ou seja, a droga ainda que psicotrópica age como um apaziguador, silenciador dos efeitos de desconforto, de dessabor do próprio descompasso com o ritmo da vida. A angústia, ansiedade, insônia, obsessão, tristeza, não são estas manifestações?

É pertinente perguntar, e como localizar o psicólogo clínico neste contexto moderno para entender a doença mental? Como explicar neste conjunto a subjetividade? Óbvio que cada psicólogo clínico buscará explicar conforme sua orientação, mas fato é que , ainda que em alguns casos seja necessário o uso medicamentoso, há em nossos dias significativos esforços para superar e melhorar a condição humana frente as novas proposta e desafio, propostos por esta sociedade cada vez mais exigente. Mas, para” superar a necessidade do uso contínuo de “drogas lícitas e ilícitas ” é necessário esforço, persistência e ressignificação da própria vida. Para não se recorrer para as farmácia para podermos viver, ou recorrermos a elas em caso de emergência e não por fracasso, há muita vida por se viver, muito o que se melhorar. Sorrisos para alegrar, coisas melhores por se fazer. A psicoterapia pode e muito os ajudar.

Imagem de capa: Shutterstock/Sergey Nivens

Referencias

 

Bassols, M. (2011). Las neurociencias y el sujeto del inconsciente. Las neurociencias y el sujeto del inconsciente. España.

Bauman, Z. (2004). Modernidad líquida. México DF: Editorial Fondo de Cultura Económica.

Carr, A. (2007). La Felicidad. En A. Carr, Psicología Positiva: la Ciencia de la felicidad. Barcelona, Buenos Aires, México: Paidos.

Galende, E. (2008). Psicofármacos y la salud mental: la ilusion de no ser. Buenos Aires: Aires: Lugar Editorial.

Strickland, B. (2001). Historia e introducción a la psicología clínica. En S. Curalli, Fundamentos de psicología clínica (págs. 1-25). México: Pearson Educación.

 


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