Do Sindy Psipr

“Eu me descobri negra aos 22 anos”, afirma a psicóloga Fernanda Almeida Pedroza (CRP 08/21395), que está terminando uma pós-graduação onde ela fez questão de relacionar em seu trabalho de conclusão a discriminação racial e a saúde mental de negras e negros. A declaração lhe pareceu estranha? A própria Fernanda explica. “Eu sentia o racismo, mas não nomeava como tal. Sempre ouvi que eu era branca demais para ser preta e preta demais para ser branca. A sensação era de que eu estava no limbo. Só me descobri negra depois de adulta”.

A autoafirmação demorou para chegar, e o que pode parecer um simples impulso interno de identificação tem a ver, na verdade, com a existência de um racismo estrutural no Brasil. “Se pensarmos na vida em sociedade, que começa na família, vai para a escolinha e depois em outros espaços, há indícios de racismo já na primeira infância, que carrega um fator de risco para o resto da vida. A criança negra é chamada de sujinha, esquisita, a do cabelo ruim, e ela cresce nesse meio racista”, lembra a psicóloga, que critica a ausência de debates sobre a questão racial nas escolas, na formação dos profissionais e nas famílias. “Se ninguém questiona, as pessoas passam a ver o racismo como algo normal ou inexistente”.

Fernanda começou a estudar a relação entre racismo e Psicologia por conta própria, já que não existiam disciplinas no curso que abordassem a temática. A consequência disso é a dificuldade de achar estudos sobre a questão racial e a saúde mental. “Eu encontrei material da Psicanálise e da Psicologia Social, mas não da Cognitivo-comportamental, que é a minha linha teórica. A saída foi trazer esse debate para a minha linguagem”, conta. As pesquisas acadêmicas impulsionaram também a vida profissional de Fernanda, que atende em sua clínica e vê crescer a demanda de pessoas negras por atendimento psicológico.

“Identifiquei que algumas delas queriam ser atendidas por mim porque viram minha foto. Várias pessoas negras me contam que têm medo de chegar para um psicólogo e ter que explicar o que é racismo, ou do terapeuta dizer que isso não existe. Tenho pacientes que passaram por isso”, relata Fernanda, que afirma já ter sido questionada ao falar sobre essa preferência dos pacientes. “Perguntaram se eu achava que somente negros podem atender negros, ou se psicólogos heterossexuais não podem atender homossexuais. Eu não penso assim, mas, por outro lado, devido a falta dos temas na formação dos profissionais, dá pra compreender o porquê de algumas pessoas terem essa preferência”.

O racismo na terapia

Ansiedade de desempenho, auto-conceito pobre, baixa autoestima e depressão são alguns dos casos que chegaram até a psicóloga. Nem sempre as queixas são diretamente relacionadas ao racismo, mas o próprio processo terapêutico começa a evidenciar as influências da discriminação. “No caso das mulheres negras com baixa autoestima, por exemplo, meu papel é acolher e ajudar a pensar no que é possível fazer com essa realidade. Eu ajudo a prevenir um dano emocional maior”, explica Fernanda depois de citar o caso de uma mulher negra que foi obrigada a alisar o cabelo para permanecer no emprego. “As pessoas mais empoderadas não estão excluídas do mundo, que é racista. Ela precisa trabalhar, pagar contas… Varia muito de caso para caso”.

A Psicologia trata a questão racial com negligência?

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), negros representavam mais da metade dos brasileiros em 2014: 53,6%. “Considerando que o racismo é um fator de risco para a saúde mental, e se a gente pensar que isso não é debatido na formação do psicólogo, dá pra dizer que a Psicologia está sendo negligente com a maioria da população do Brasil”, assegura a psicóloga.

Uma das preocupações de Fernanda se refere ao poder que a Psicologia tem de legitimar verdades. Não falar sobre o racismo pode aumentar a sensação de que ele não é um problema. “Os psicólogos levam em consideração diversos fatores de risco para a saúde mental. Por que não fazer o mesmo com o racismo? Eles podem não ter consciência da gravidade disso, mas não deixa de ser negligência. É importante atuar e agir de maneira não racista, em um movimento que vai do reconhecimento à desconstrução de preconceitos. Para isso é preciso saber o que é o racismo”, alerta a psicóloga.

Formação contra o preconceito

Para além de uma mudança de conduta, Fernanda defende que a formação da psicóloga e do psicólogo tenha uma abordagem apropriada sobre a questão racial. “As faculdades devem debater o racismo como questão de saúde mental, como prevenção. É preciso trabalhar para conscientizar as pessoas de que elas são racistas, e que tudo bem, desde que elas se disponham a desconstruir esses preconceitos”.

A psicóloga relaciona essa dificuldade de autoquestionamento com o fato de o racismo, no Brasil, ser indizível. Em outras palavras: as pessoas têm práticas racistas, mas não se identificam como tal. “Eu também tive que me reconhecer como preconceituosa para superar meus preconceitos. Esse é o primeiro passo”.

Imagem de capa: Shutterstock/pjcross

TEXTO ORIGINAL DE GELEDÉS

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