Quando se está pagando para trabalhar.

Título polêmico para uma questão importantíssima da prática profissional em psicologia, afinal; Quais as dificuldades que os psicoterapeutas encontram para valorar e com isso valorizar o trabalho realizado? A pergunta aponta para direções diversas, pois ora estamos apreciando um valor ao cliente, ora aos parceiros de trabalho, clínicas e sociedade. Será que no fundo, toda essa apreciação e valorização não estão implicadas no nosso desconhecimento a respeito do que fazemos? Fico com essa ultima impressão.

Eu não estou falando dos custos e dificuldades para iniciar e manter uma clínica, até porque no começo da carreira as circunstancias podem levar a situações em que há riscos de desequilíbrios no caixa, contratos desvantajosos, gastos com investimentos etc. Mas há o momento em que percebemos isso como um paradoxo necessário. Então se por um lado precisamos nos sujeitar a situações adversas, por outro lado, e, ao mesmo tempo nós não podemos simplesmente aceitar isso como algo que deva se transformar pela simples passagem do tempo cronológico: “Quando tiver 20 anos de clínica exigirei ser valorizado”.  

A grande questão é que viver esse paradoxo, o mal-estar instituído nele, e administra-lo é algo que certamente faz parte do trabalho! Dito isso podemos refletir sobre uma especificidade do mal estar na cultura brasileira, na realidade brasileira que compartilhamos, e que também é a dos nossos clientes – A Desvalorização do trabalho intelectual-. Eu não estou falando da desvalorização da personalidade/pessoa do intelectual, do intitulado, não, eu estou falando do trabalho intelectual que também é o trabalho analítico. Ou seja, um professor de línguas que dá aula particular cobra muito caro ao seu aluno, um analista que é um tradutor da linguagem do inconsciente, por assim dizer, nem sempre.

Quando eu estabeleço essa metáfora: “O analista é como um professor de línguas” eu estou trabalhando, segundo o dicionário Michaelis:2 Exercício material ou intelectual para fazer ou conseguir alguma coisa”. O quê? Uma transposição, pois: “Do grego, a palavra “metáfora” (metáfora) é formada pelos termos “metá” (entre), e “pherō” (carregar) que significa transporte, transferência, mudança”. Então temos que o inconsciente é uma estrutura definida logicamente, mas que é clarificada e atualizada quando o analista, esse grande colecionador e articulador de metáforas, estabelece uma comparação que implica coisas aparentemente sem sentido, mas que dizem respeito ao cliente, e que não seria possível revelar por outra via.

 O problema é que esse trabalho pode não parecer um trabalho justamente para quem mais precisa desse trabalho! Por exemplo, quando se observa o empobrecimento da capacidade de simbolização e da habilidade comunicacional em certos clientes, configurando todo um amplo espectro de sofrimentos narcísicos, o que mais se faz são empréstimos de linguagem (corporal inclusive) como recurso à falta de organização. Mas justamente esses sofrimentos excluem um repertório simbólico capaz de compreender a importância do repertório simbólico! Pior, quando um país inteiro caminha na direção do empobrecimento cultural devido à falência do sistema educacional que tipo de entendimento pode-se esperar por parte parceiros e clientes? Ou até mesmo o psicólogo em relação à si, que corre o risco de nem conseguir delimitar e perceber, e por isso valorar e valorizar o seu trabalho.

 

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Carlos Bengio
Psicólogo. CRP 117690. Mestrando pela PUC em psicologia Clínica - Método psicanalítico e formação da cultura - Clínica Particular: São Paulo, (SP). Psicólogo clínico, interessado em psicanálise cultura e sociedade, especialmente cultura e sociedade brasileira. Contato: (11) 9 7578-1485(Tim).



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