Quem somos nós?

Para alguns pensadores, o homem é um nada em si mesmo. Para outros, é uma oportunidade infinita. Mas responsável por essa oportunidade infinita. A Psicanálise vai definir o homem como um ser dividido, que traz em seu psiquismo pulsões de vida – que o levam ao amor e à arte – e pulsões de morte – que o levam à dor e à destruição. Fazemos perguntas e nunca estamos contentes com as respostas que encontramos no supermercado da civilização. Para sobreviver, fazemos pactos sociais, normas e leis. E, em consequência, produzimos culpas, fracassos, frustrações e desejos inalcançáveis. Somos insatisfeitos, incompletos e inseguros. Seres de linguagem e debruçados sobre a cultura que produzimos desde a pré-história, temos acumulado certa sabedoria e muitas guerras.

Verdadeiramente só nos constituímos na relação simbólica: falamos; escrevemos; utilizamos as palavras. Nascemos a partir do desejo de outras pessoas e é no contato e no convívio com o outro que estabelecemos nossa especificidade de animais. Freud, o criador da Psicanálise, afirma que o outro é a medida constituinte do eu, tanto em termos amplos, no processo evolutivo de nossa espécie, quanto em termos do desenvolvimento de cada um de nós enquanto filhotes humanos. Somos os mais desamparados dos seres. Necessitamos de cuidados de uma família que nos acolhe (ou não) desde o nascimento até a posse relativa de nossa autonomia.

No grupo familiar, recebemos um nome, um lugar, história e geografia. Aí também somos como que apontados em nossa diferença, inclusive sexual. Nas relações que estabelecemos com o outro e que o outro estabelece conosco, desde o útero materno, vamos formando nossa identidade de gênero e nossa orientação sexual, com as quais podemos assumir nosso ser no meio social e simbólico até a maturidade. De pergunta em pergunta, encontrando ou não respostas, de fase a fase, vamos nos apropriando de nós mesmos, mas sempre de forma a nunca estarmos prontos ou completos. Como escreve Guimarães Rosa, no romance Grande Sertão: Veredas, o mais importante e bonito do mundo é que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que vão sempre mudando.

Nunca saberemos exatamente quem somos, mas arriscamos palpites. Nunca saberemos também para que serve mesmo a vida. Para ela, precisamos inventar sentidos que nos organizem e nos estruturem. Assim, podemos usufruir da vida em si mesma, em sua beleza e em seu mistério, mas ainda em seu absurdo e em seu nonsense. Angustiados e ansiosos, à medida que vamos crescendo, nos fazemos perguntas metafísicas e morais. Existe algo além do que vemos? Há um Deus? Há um modo correto de viver? O que é certo? O que é errado? Os acontecimentos obedecem a uma ordem? Tudo é contingente? Tudo é acaso?

Buscando explicações, podemos nos deparar com a Filosofia, a Arte, a Religião ou a Ciência. De um modo ou de outro, enquanto não nos conhecemos plenamente em nossa divisão profunda e não nos libertamos do jugo familiar e social, podemos correr o risco de não viver nossa própria vida, mas vivê-la ao gosto do(s) outro(s). Para viver a nossa vida, é necessário descobrir e sustentar nosso desejo mais radical, mais profundo, mais nosso. Talvez isso seja impossível se não nos submetemos a uma Análise pessoal, porque é só dentro de nós mesmos que temos o saber, a resposta, o conhecimento e a sabedoria que tanto procuramos fora.

Não é acessando unicamente nossa consciência, nossa razão, que descobrimos quem somos e o que desejamos. Precisamos mergulhar na aventura singular de deixar falar e de escutar o nosso inconsciente, nosso mundo interior, nossa região abissal. Exatamente porque fomos formados a partir de um outro é que esta experiência analítica precisa da colaboração de alguém que, antes de nós, passou pela mesma viagem. Como tão bem diz Freud, a este analista devemos comunicar tudo o que nos vem à cabeça, não somente desabafos intencionais ou descrições de nosso dia a dia, mas também o que nos envergonha, o que censuramos e o que nos escapa ali, naquele momento em que nos abrimos à descoberta de nós mesmos. Ampliar o conhecimento de nós mesmos a partir do inconsciente é uma das maneiras como podemos encarar uma Análise. Porque todos nós somos um sintoma: precisamos de cuidados e de deciframentos.

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Paulo Emanuel Machado
Paulo Emanuel Machado é psicanalista, escritor e professor. Tem dois romances publicados: A TEMPESTADE (Editora Scortecci, 2014) e VOCÊ NÃO PODE SER O OCEANO (Edição independente, 2015), ambos baseados em relatos de pacientes e alunos. O primeiro sobre abuso sexual; o segundo sobre a travessia difícil da adolescência.Também possui artigos publicados e contos em antologias. É de Salvador, Bahia, nascido a 10 de janeiro de 1960.



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