Relacionamento entre Pais e Filhos: Três questões para refletir

Tanto na prática clínica, quanto no cotidiano, muitas são as perguntas e questionamentos que as pessoas possuem sobre relacionamentos e vida pessoal, muitas vezes em relação aos filhos e a dificuldade em lidar com algumas situações específicas. A partir disso, elaborei esse texto em forma de questões que abordam esses aspectos, buscando compreender, esclarecer e enriquecer ainda mais essa relação entre pais e filhos e seus inúmeros desafios.

Qual a principal “falha” no relacionamento entre pai e filho que impossibilita uma relação de amizade entre os dois?
Acredito que o termo ideal para isso não seja “falha”, mas sim um conjunto de questões que envolvem esse tipo de relação, muitas delas determinadas culturalmente. Vejamos bem: muitos pais transmitem aos seus filhos uma postura mais rígida durante toda sua infância, e essa postura muitas vezes contribui para um afastamento de seus filhos, pois lhes remete a ideia de que os pais não irão compreender seus conflitos ou não poderão ouvir seus dilemas e dar uma possível orientação, que seria o papel deles.

A amizade entre pais e filhos não é um problema, pelo contrário, pode tornar-se uma relação de companheirismo e cooperação, porém é preciso ter cuidado para não confundir os papéis dessa relação, podendo haver a perda do respeito e da autoridade necessária para impor alguns limites, sendo esses fundamentais no desenvolvimento infantil. Infelizmente, muitas vezes as confidências entre filhos e pais estão voltadas para situações que acontecem entre o pai e a mãe, por exemplo, sem se dar conta, a mãe fala do pai para o filho, o pai fala da mãe e a criança acaba ficando no meio das frustrações do casal.

É preciso ter cuidado com o que falamos às crianças, muitas vezes não damos importância a isso, mas essas ações e experiências vividas irão servir de referência para as suas relações futuras. Acima de tudo, a relação entre pais e filhos deve ter muito afeto, aceitação e perdão.

Tanto o pai quanto a mãe trabalham fora nos dias atuais. Como driblar o problema da falta de tempo para ficar com os filhos para que isso não afete diretamente nessa relação?

Hoje em dia, com a falta de tempo, é um grande desafio curtirmos momentos em família, ainda mais quando os pais trabalham e os filhos passam o dia na escola, creche ou com alguém que propicie cuidados no próprio lar da família. Porém, a grande questão aqui não é passar o dia fora, longe dos filhos, pois é uma ação necessária para o sustento da família. O grande desafio que tenho observado nos dias atuais é a dificuldade de nos doarmos por inteiro, no pouco tempo que temos para estar junto de nossa família. O que quero dizer com isso?

Quando chegamos do trabalho, nos finais de semana e em outros momentos, acabamos muitas vezes conectados mais ao celular ou com nossas tarefas, sem nos darmos conta disso, ou até mesmo, os próprios filhos que também possuem celular (aliás, cada vez mais cedo), jogando em computador e afins. Nos últimos dias, circulou nas redes sociais um texto com o título: “Seu filho pode estar querendo ser um celular nesse momento” que aborda justamente essa questão.

Acabamos assim, nos perdendo em meio a essa tecnologia e não aproveitamos os momentos com nossa família de modo mais intenso e verdadeiro. Isso não significa que todos agem assim, mas é um comportamento social que muitas vezes repetimos sem nos darmos conta disso. E também existem muitas tarefas que precisamos executar e que tomam muito de nosso tempo e acabamos não conseguindo nos organizar. Diante disso, será mesmo que nosso problema é a falta de tempo?

Ou de aproveitar melhor o tempo que temos? A maneira de driblar esses desafios acredito que seja organizar melhor o tempo em família para realizar atividades juntos, envolver os pequenos em passeios, piqueniques ou até mesmo em casa, que possamos nos doar por inteiro sempre, aproveitando cada momento, fazendo coisas que talvez nunca nos permitimos fazer ou que há muito tempo não praticamos. Lembrando que o tempo somos nós quem criamos!

Baseado na psicologia existe alguma “fórmula secreta” para ter um bom relacionamento com seu filho?

Pois bem! Se existe alguma fórmula secreta ou mágica para quaisquer situações de nossa vida eu desconheço. Aliás, acredito que seja improvável que exista, visto que somos seres humanos diferentes, com sentimentos diferentes, pensamentos e emoções diferentes, passando por inúmeras situações diferentes ao longo de nossa vida, como poderia haver uma única receita ou fórmula mágica que pudesse servir para a vida de todos? Porém, algumas orientações são válidas para cultivar um bom relacionamento entre pais e filhos, de modo saudável.

Algumas delas já citei nas respostas anteriores: tire mais tempo para atividades diferenciadas com seus filhos, brinque, deixe o celular em segundo plano, assista filmes ou desenhos educativos com eles, pergunte o que seu filho deseja fazer, deixando que ele faça parte das decisões que lhe cabem, crie um ambiente de cooperação em sua casa ouvindo mais, busquem juntos estratégias para a resolução de problemas, aprenda a dizer NÃO!

Impor limites ao contrário do que muitos pensam, é fundamental para a saúde emocional das crianças. Não viva para agradar seu filho continuamente, isso não irá prepará-lo para as adversidades da vida, pelo contrário, o tornará inseguro. E aproveite intensamente cada momento com eles, pois esses serão eternos!

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Sara Kronbauer
Psicóloga, gaúcha e acompanhada de um enorme desejo pela escrita, suas provocações e nuances. Para mim, a escrita possui múltiplos sentidos, ao passo que ela me permite analisar, constatar, indagar e perceber situações de modo diferente do habitual, saindo do "clichê" e habitando paisagens e caminhos ainda não desbravados, percorridos ou sentidos e isso vale também para a leitura. Escolhi também a Psicologia, justamente por ela me ofertar a possibilidade de ampliar o olhar frente às questões da vida. Trabalho atualmente em Consultório, onde realizo atendimento de crianças, adolescentes e adultos. Desenvolvo também, o Café com Psicologia, que trata-se de um projeto que busca aproximar as pessoas da Psicologia, a partir de encontros em diversas instituições e estabelecimentos, discutindo temáticas pertinentes à profissão. Busco assim, propagar ideias, desfazer certezas e construir caminhos.



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