Religiosidade e Espiritualidade na Dependência Química

Historicamente a religiosidade é definida pelo senso comum como “ópio do povo”, porém tem ganhado nos últimos anos espaço na literatura e estudos científicos. Na dependência de drogas a religiosidade/espiritualidade tem tido influência na recuperação mostrando atuação relevante em saúde e assistência social, suscitando nas comunidades cientificas mais pesquisas não só do tema mas, principalmente na compreensão do mecanismo que atua favorecendo uma recuperação com maior sucesso.

Religiosidade e espiritualidade, embora as vezes sejam usadas como sinônimos, são multidimensionais e possuem características especificas. A espiritualidade é definida pelos indivíduos por si mesmos, de forma individual e pessoal, livre de regras religiosas e reflete a busca por explicações acerca da condição humana. A religiosidade por sua vez é definida com prática e envolvimento com uma religião específica, envolvendo crenças, práticas e rituais com o “transcendente” definido como Deus ou outras divindades.

Entre adolescentes que praticam alguma religião há uma taxa menor de consumo de drogas, pois estes jovens desenvolvem a habilidade de auto regulação e fortalecem resiliência diminuindo assim a exposição a fatores e comportamentos de risco. Estes comportamentos perdem força por estarem em desacordo com normas estabelecidas e por não serem praticadas ou estimuladas pelo grupo de iguais.

Pesquisadores supõe que a religiosidade/espiritualidade controlam, indiretamente, o primeiro uso de droga por ação direta da estrutura familiar, pois é consenso de acordo com estudos, que pessoas que se declaram religiosas consomem menos droga, incluindo álcool e tabaco.

No tratamento em dependência de drogas as igrejas brasileiras tem assumido três linhas de ação:

1- Grupos religiosos de mútua-ajuda;
2- Frequência a cultos religiosos;
3- Desenvolvimento de religiosidade/espiritualidade, oferecido em Comunidades Terapêuticas.

Apesar disso, estes grupos tem sido pouco estudados para avaliação e eficácia. Vale a pena ressaltar que se observa um forte impacto da religiosidade/espiritualidade no tratamento da dependência química, sugerindo que este vínculo facilite a recuperação e diminua as recaídas.
Os principais mecanismos propostos pelos quais a espiritualidade/religiosidade atuam como proteção ao uso de drogas seriam:

1- Normas e condutas definidas e postura contra o uso de drogas;
2- Famílias propensas a dar exemplo de não uso de drogas;
3- Suporte social;
4- Círculo de amigos não usuários;
5- Pertencimento a um grupo coeso e acolhedor;
6- Fé e crença em um poder superior;
7- Oração e êxtase espiritual como fontes de prazer.

É em razão da atmosfera de acolhimento dos grupos religiosos que o adepto se sente impulsionado a continuar no grupo. Na fase inicial os indivíduos não são atraídos pela religiosidade/espiritualidade mas pelo acolhimento e identificação com a proposta do grupo, esta será desenvolvida em uma segunda fase, após adaptação ao programa do grupo. Inúmeras pesquisas demonstram que pessoas isoladas vivem pior do ponto de vista psicológico e físico, apontando a importância da rede social.

Atualmente, a associação entre religiosidade/espiritualidade e a recuperação de doenças é consenso. A questão mais profunda diz respeito ao mecanismo pelo qual a fé e busca pela religiosidade/espiritualidade determinam mudanças comportamentais e orgânicas.

A fé é uma emoção positiva, no entanto esta emoção em um indivíduo depende de fatores culturais, experiências de vida e reflete a crença em Deus e seus poderes. É interessante que o médico recomende um envolvimento religioso no processo de recuperação de seu paciente, caso este se mostre aberto para tal.

Porém, temos que apontar possíveis aspectos negativos da religiosidade/espiritualidade na saúde de alguns fiéis, tais como fanatismo religioso, crença na punição divina e na doença como um castigo a algo que precisa ser “suportado” para purificação. Estas crenças podem afastar o indivíduo do tratamento, pois ele acaba aceitando sua situação acreditando que o sofrimento é natural para a redenção de seus pecados, prejudicando o tratamento e possível cura.

Fonte de pesquisa: O tratamento do usuário de crack – Marcelo Ribeiro/Ronaldo Laranjeira
Compartilhar
Ana Pires
Psicologa Clinica com atuação em Dependência Química/ Saúde do adulto e Idoso , CRP/RS 07/19046



COMENTÁRIOS