Saber escutar

Por Miriam Subirana

Já sentiu alguma vez que não é escutado? Em caso afirmativo, faça uma revisão em si mesmo. Quem sente que não está sendo ouvido, é porque não ouve os outros. Talvez estejam prestando atenção em seus próprios ruídos mentais e não estejam abertos. Nestes casos, é bom preparar o terreno para a conversa. Comunique como é importante para você ser ouvido pelos outros. Crie um espaço e positividade, no qual se sinta confortável para se abrir e ajude a que o outro também esteja aberto para ouvir. Se disser o que pensa de qualquer maneira, em qualquer lugar, possivelmente não está levando em conta seu interlocutor. Quando o que queremos comunicar é importante devemos preparar o momento e a pessoa que queremos que nos escute.

Nossa mente está carregada de informações e pensamentos que vão para todas as direções. Com certeza ouve vozes diferentes: a do seu papel, a da sua responsabilidade, as do seu passado, a da opinião de outras pessoas, a de seus desejos insatisfeitos, a de sua lógica racional, a voz de suas preocupações e medos, e a da sua intuição, de sua consciência. Temos diferentes canais pelos quais nossas mentes funcionam. Pensamos em pessoas, em projetos e trabalho, no que aconteceu ou no que deveria acontecer, no dinheiro, no carro, na reunião, no correio, no celular, no fim de semana ou nas férias. Pulamos de um canal para outro sem nos concentrar. Estamos dispersos em muitas questões. Às vezes, várias vozes falam conosco ao mesmo tempo. Em qual delas devemos prestar atenção?

Quando sua mente está falando o tempo todo, que qualidade terá sua escuta? Você consegue silenciar sua mente para prestar atenção à sua intuição e para escutar os outros com total interesse? Quer dizer, prestando atenção em seus gestos, seus sentimentos, sua vibração, palavras, os sons que as acompanham, o conteúdo do que eles narram, a expressão facial deles. Para conseguir isso deve silenciar a mente e estar presente. Como? Parando, respirando, tomando um tempo para desacelerar.
Desconectar dos ruídos externos para lidar com os ruídos que existem no seu interior, e fazer uma limpeza. Cada dia. Assim como você tira o lixo de casa diariamente, livre-se do lixo mental, todos os dias.

Assim será mais fácil estar presente com o coração aberto, para sentir e ter empatia; com a mente limpa, para incorporar novos dados e não julgar nem assumir antecipadamente; com seu corpo presente, para captar a linguagem psicossomática do outro. A partir deste estado você pode dar a melhor resposta. Às vezes vai ser um sorriso, um silêncio, alguns olhos despertos, e outras vão ser algumas palavras cheias de sentido.

A natureza é sábia e nos fez com dois ouvidos para expandir nossa capacidade de ouvir. Mas de onde escutamos? Muitas vezes escutamos no piloto automático e com os hábitos adquiridos. Ou seja, ouvimos apenas o que confirma o que já sabemos e o que acreditamos. Estamos concentrados em nós mesmos, e antes que o outro termine a frase já afirmamos: “Sim, eu já sei isso”. Temos certeza de que entendemos o outro, e nem sequer deixamos que termine sua história. Limitamos nossa escuta àquilo que confirma nossas opiniões.

Outras vezes, conseguimos manter a mente aberta a novos dados, e nossa escuta está concentrada em obter informações diferentes das que já temos. Deixamos de nos concentrar em nossa voz interior para prestar atenção no que se revela na frente de nós. Expandimos nossa curiosidade e indagamos para saber mais. Conseguimos estabelecer uma conversa que amplia nossos conhecimentos sobre alguma questão. No entanto, nossa escuta ainda pode ser mais aberta quando ultrapassamos os limites da nossa organização mental cognitiva. Trata-se de abrir nosso coração para que nossa escuta seja empática.

Se a escuta é empática, permite uma maior compreensão

A primeira via de escuta empática é consigo mesmo. Atravessar as camadas de múltiplos pensamentos para ouvir a voz mais íntima: a intuição. Segui-la é se conectar com a bússola interna que nos ajuda a manter o rumo. É uma voz que às vezes sussurra algo para nos ajudar a decidir. Com a intuição não entramos no processo de analisar, duvidar, intelectualizar, questionar. Sua sabedoria fornece um verdadeiro guia. Quantas vezes temos a ideia de fazer alguma coisa, mas nossa lógica ou nossas crenças nos dizem: “Não, não, por aqui não, por lá”. Então pensamos: “Eu deveria ter feito o que estava pensando”. A intuição é sentida, ouvida, não é pensada. Muitos de nossos pensamentos têm a ver com o passado ou o futuro, mas a intuição está sempre relacionada com o momento presente.

Quando ouvimos com empatia, mudamos nossa percepção. Em vez de tomarmos consciência a partir de nossa lógica racional, ou de limitarmo-nos a captar os dados que são compartilhados conosco, nós nos concentramos em sentir. Isso nos facilita descobrir tudo de vivo que há em nós e em quem nos rodeia, e em especial naquela ou naquele a quem estamos escutando. Nós nos conectamos. Nesse vínculo, deixamos nossas predisposições de lado e nos abrimos a sentir o que a outra pessoa diz. Ouvimos sem julgar, de um lugar de aceitação.

SOLTAR ÂNCORAS

 

Abrir o coração, segundo Otto Scharmer, significa ter acesso aos níveis mais profundos de nossa percepção emocional e ativá-los. Nessa abertura, vivemos a interconexão, que é a lei da vida. Sendo conscientes de nossa interconexão com tudo e com o todo nos damos conta de que o que pensamos, dizemos e fazemos tem impacto. Quando ouvimos a partir desse espaço, nossa percepção se amplia.

Nesse estado deixamos de nos sentir separados. A pessoa deixa de se sentir vítima e necessitada, para se dar e compartilhar. Torna-se uma experiência de transcendência da individualidade e de acesso às forças do universo nas quais o gozo não fica fechado em si mesmo, mas é uma doação de si mesmo ao outro e ao todo.

Ouve a batida de seu coração? Percebe como se move o diafragma quando respira? Escute… O livro de Otto Scharmer aprofunda nos diferentes níveis de escuta e nos ilumina quanto ao fato de que podemos nos concentrar no futuro que nos chama, que quer nascer em nós, em vez de estarmos ancorados no passado.

A escuta empática pode ser desenvolvida ativando a inteligência do coração. Para conseguir isso, primeiro devemos silenciar as maquinações da mente complicada. Ou seja, deixar de estar constantemente preocupados, centrados no passado ou ansiosos pelo futuro, julgando e criticando, culpando e sendo catastrofistas.

O caminho mais efetivo para conseguir isso é meditar. Trata-se de serenar a mente, eliminar o palavrório mental e abrir espaço para a escuta. Escute-se a si mesmo. Perceba o que você sente. Abra-se a si. Imagine-se junto a um rio e solte nele tudo o que não necessita agora. Deixe que a corrente o leve. Ou imagine que cada pensamento desnecessário é uma folha que o vento leva. Areje-se.

Uma vez que a mente está serena, podemos sintonizar melhor com o coração, com nosso sentir. E deste espaço podemos atender o outro, estando plenamente presentes. Assim, nossa escuta é empática.

Mas ainda podemos ampliar mais nossa forma de ouvir. Vamos ver.

Há outro nível de escuta, a que é produtiva. Ou seja, a que gera um estado diferente enquanto a praticamos. É uma variação que permite que nos conectemos com a melhor possiblidade futura que quer emergir.

“Este nível de escuta requer que entremos em contato não só com nosso coração aberto, mas também com nossa vontade aberta”, afirma Otto Scharmer, autor do livro Teoria U: Como liderar pela percepção e realização do futuro emergente. “Já não procuramos mais fora. Neste processo de escuta passamos por uma mudança profunda e sutil que nos conectou com uma fonte de saber mais profunda, incluindo o conhecimento da melhor possibilidade e do melhor ser futuro.”

Nesse estado, a conversa está plena de sentido, e a pessoa resiste a ser arrastada à superficialidade das palavras. A presença é plena, e se vê e se percebe para além do campo comum. Ou seja, a pessoa se sente envolvida por uma força maior, que poderia ser chamada de estado de união com algo que lhe transcende. O indivíduo tem mais consciência do todo e se sente conectado.

Todos podemos perceber que o modo de atenção que aplicamos quando ouvimos determina o resultado da conversa. Se escutamos a partir de nosso eu centrado no que já sabemos, não obtemos sequer uma conversa interessante. Por sua vez, se a escuta é empática, permite uma maior compreensão.

Depois de uma boa meditação, quando nossa mente está serena, e o coração e a vontade, abertos, a escuta vai além de nós, do outro, e nos conecta com outra dimensão mais universal. É produtiva. É difícil colocar isso em palavras. Trata-se de sentir o outro e estar em comunhão com o todo. Já não somos eus separados. As barreiras que nos separam são desmontadas e sentimos a interconexão com todos e com o todo. Abraçamos a existência do outro e de mais além do outro. Sentimos o campo que nos une e estamos nele.

TEXTO ORIGINAL DE EL PAÍS

 
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