Diariamente, concepções distorcidas sobre o que e como é ser homem são reforçadas e reproduzidas. Introduzidas nos meninos desde a mais tenra idade, isolam e denigrem o que está associado ao feminino. Os conceitos e comportamentos machistas não afetam apenas as mulheres e não são apenas os homens que os reproduzem. Através de uma visão deturpada, significados equivocados sobre o que é ser másculo são propagados, sufocando e adoecendo garotos e homens que sofrem em silêncio tentando se encaixar aos ideais masculinos.

A cobrança e o esforço em provar a masculinidade iniciam cedo e se perpetuam por toda a vida. Ainda crianças, meninos são repreendidos ao chorar, aprendendo que demonstrar vulnerabilidade não é permitido, afinal, homens não choram. Incentiva-se a defesa através da força física. Ensina-se que prestígio social está atrelado à situação financeira, estimulando uma obsessão com o sucesso profissional; que homens são emocionalmente contidos, mas agem por impulso se forem ofendidos e que a objetificação da mulher é algo esperado de um homem viril, que jamais pode dispensar uma chance de fazer sexo.

Ao contrário das meninas, que têm mais facilidade para expressar seus sentimentos com as amigas, os meninos não se sentem tão confortáveis para falar de questões íntimas, temendo rótulos pejorativos como “fracote”, “mulherzinha” ou “gay” ao não sustentar o estereótipo de homem destemido e autossuficiente. Assim, se isolam emocionalmente e reprimem sentimentos, além de se sentirem aterrorizados com a menor possibilidade de não serem heterossexuais, nutrindo a homofobia.

Insegurança, tristeza, medo e até afabilidade sugerem inferioridade. Necessidade de cuidados e afeto, expressão de emoções e outros aspectos associados ao contexto feminino são considerados negativos, indicam fragilidade e são repelidos com veemência. Isso reflete na displicência com a própria saúde, afinal, homem de verdade deve ser forte e inabalável, conforme os preceitos do machismo.

A pressão e imposição destes padrões masculinos, juntamente com a repressão das emoções, deixam os homens mais suscetíveis à dependência química, depressão e aumento da agressividade que desencadeia atos violentos, visto que a única emoção autorizada a eles é a raiva. Ou seja, a masculinidade se vincula à morte prematura através de condutas de risco, doenças ocasionadas por negligência à saúde, suicídio e assassinatos.

Machistas não são criados em outro planeta, são pessoas comuns criadas por pessoas comuns que, na maioria das vezes, não têm a intenção consciente de disseminar opressão e ignorância. A aversão a alguns traços naturalmente humanos é transmitida aos meninos por homens e mulheres, que produzem e reproduzem estereótipos de gênero. A transmissão dessa cultura avassaladora só será interrompida se revermos os enraizados padrões e conceitos sobre o que é esperado para cada sexo. Independente da sexualidade de cada um, desconstruir concepções errôneas acerca do que é ser um homem de verdade beneficia e libera todos das garras asfixiantes do machismo.

Imagem de capa: Shutterstock/Oleg Golovnev

 

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Marciane Sossmeier
Psicóloga clínica com enorme interesse nos processos e mecanismos envolvidos nas interações e comportamentos humanos. Com orientação psicanalítica, mantém uma abordagem integral do ser humano e sua subjetividade. Graduada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pós-graduanda em Dinâmicas das Relações Conjugais e Familiares pela Faculdade Meridional (IMED). .

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