“Sofro de ansiedade faz anos, já tentei de tudo, o que fazer?”

Essa é uma frase que escuto cada vez mais no consultório e até nas conversas com conhecidos. Acredito que não existe uma fórmula mágica de como deixar de ser ansioso, se houvesse e eu soubesse, eu certamente compartilharia, mas ao longo da minha jornada como Psicóloga e como pessoa, por que afinal quem nunca sentiu na pele a ansiedade não é mesmo? Eu percebi alguns fatores que impedem as pessoas de viver sem tanta ansiedade:

Seguem então 8 fatores que atrapalham no sucesso de um tratamento de um Transtorno de Ansiedade:

1) NÃO SABER DIFERENCIAR ANSIEDADE DE TRANSTORNO DE ANSIEDADE:

A ansiedade é um estado de apreensão diante de uma ameaça ou algo que desconheço. É Absolutamente normal sentir ansiedade em algum momento da vida, como antes de uma prova, antes de uma entrevista de emprego, nessa Ansiedade “normal” a pessoa geralmente sabe o que lhe causa temor com clareza.

Já no transtorno de Ansiedade a pessoa sente a Ansiedade de forma intensa e recorrente; já não consegue saber o que lhe deixa ansioso, os sintomas aumentam (coração acelerado / taquicardia, suor frio, tremores, náuseas, sensação do ambiente e corpo estarem estranhos, “aperto no peito”, “nó na garganta”, dores e tensões pelo corpo, dificuldade em relaxar, tonturas, alterações de pressão, sensação de que vai morrer ou ter um infarto, além de ataques ou crises de pânico.

Existem diversos tipos de transtornos de Ansiedade, mas eles têm em comum causar prejuízos a vida da pessoa que sofre com eles, a pessoa começará a evitar lugares, pessoas e situações que associa com a possibilidade de lhe deixar ansiosa.

2) POSTURA DE CAUSA E EFEITO-

As pessoas que sofrem de Transtornos Ansiosos tendem a acreditar que alguma situação recente como a morte de um ente querido, perdas, desemprego e etc… foi o causador de sua Ansiedade. Na postura de causa e efeito, a pessoa atribui seus sintomas ansiosos a alguma experiência desagradável, que muitas vezes coincidiu com o início ou com o aumento da intensidade dos seus sintomas, essas pessoas não tem a compreensão de que muitas vezes essas situações estressantes não foram aquilo que desencadeou os sintomas, ou seja, foram um “gatilho”, porém, estes eventos NÃO SÃO A CAUSA do seu transtorno de ansiedade.

Na maioria dos casos os transtornos de ansiedade estão ligados a experiências e repetições de situações de desamparo em especial na infância, porém, na idade adulta algumas situações tornam-se fatores que ativarão essas crenças inconscientes relacionadas às nossas vulnerabilidades pessoais.

3) PRECONCEITO EM BUSCAR AJUDA DE ESPECIALISTAS-

Por preconceito, visto que ainda muita gente associa Psiquiatra e Psicólogo a “coisa de louco” as pessoas tem medo de buscar esses profissionais, que são especialistas em estudar e atender casos de Ansiedade. Deste modo, as pessoas tendem a buscar outros meios como terapias alternativas e espiritualidade, no entanto, continuam sofrendo com seus sintomas. Vale lembrar que essas medidas podem até ajudar, já foi comprovado que aquilo que acreditamos pode nos auxiliar com os sintomas, porém na maioria dos casos o problema não é resolvido, é no máximo mascarado ou amenizado, porque essas técnicas são técnicas sem comprovação científica e que não tem recursos suficientes para lhe auxiliar de forma isolada. Essas técnicas até podem ser usadas se geram bem estar, mas, elas são apenas um complemento, não podem ser vistas como os únicos recursos para o tratamento.

4) NÃO FAZER PSICOTERAPIA –

A resistência a fazer psicoterapia com um Psicólogo, dificulta a pessoa a identificar quais suas questões internas, experiências, sentimentos e conflitos que podem estar gerando ou contribuindo para a manutenção da sua Ansiedade. Outra questão é a pessoa achar que o Psicólogo irá às primeiras sessões “dar uma fórmula para acabar com a Ansiedade”, a psicoterapia é um processo com começo, meio e fim, onde o Psicólogo irá identificar que aspectos inconscientes podem estar originando a este quadro de ansiedade e, além disso, é trabalhado junto com o paciente como este poderá lidar com isso a partir da sua subjetividade e dos seus recursos interiores.

A psicoterapia será um processo de se atribuir sentido aos sintomas, ou seja, a pessoa começa a compreender que seus sintomas não acontecem por acaso eles tem um sentido, uma mensagem a ser compreendida. Afinal sabe-se que o que “a boca cala o corpo fala”- ou o sintoma é o fracasso da palavra. E ao compreender o sentido desse sintoma, o mesmo pode ser reduzido ou até mesmo eliminado. Mas, para isso é preciso se permitir o processo que tende a levar a pessoa a ter autoconhecimento sobre o seu próprio modo de funcionar, mas também a fará se deparar com as suas dores e fragilidades.

Neste sentido algumas pessoas que já passaram por uma psicoterapia interromperam o processo justamente quando começaram a entrar em contato com as suas dores e fragilidades, por acreditarem que a terapia deveria apenas lhe causar prazer, o que é um equívoco. Outras pessoas referem que já passaram por muitos psicoterapeutas e Psicólogos, porém quando questionadas quanto tempo ficaram em cada um, chegam a dizer:

– “Fui apenas um dia e não gostei, psicólogo pra mim não funciona.” É importante dizer que um dia não é o suficiente para se considerar que o que você fez foi um tratamento em psicoterapia, claro que podemos não nos sentir confortáveis com um profissional e neste caso seria interessante buscar outro profissional da área, porém se a pessoa passou por diversos psicoterapeutas e nenhum lhe agradou, é preciso que ela se questione, será que ela se permitiu passar por esse processo? Ou devido a sua resistência em lidar com a sua dor abandonou o processo ainda no início? O que pode ser bem comum.

5) NÃO FAZER ACOMPANHAMENTO PSIQUIÁTRICO E RECUSAR-SE A TOMAR REMÉDIO –

Alguns casos crônicos, ou quando os sintomas da ansiedade estão muito intensos necessitam de medicação, por isso o acompanhamento psiquiátrico é importante, o Psiquiatra poderá avaliar a necessidade de medicação e receitá-la. Algumas pessoas, até já foram ao Psiquiatra em uma consulta, porém é preciso frisar que é necessário um acompanhamento que exige um tempo mínimo determinado pelo profissional, muitas vezes o paciente vai até o profissional e é medicado, porém não retorna e isso atrapalha, pois às vezes é necessário fazer alterações e acompanhar como a medicação está interferindo nos seus sintomas.


6) ACHAR QUE APENAS A MEDICAÇÃO PODE CURAR –

Existe uma ideia de que Remédios Psiquiátricos podem curar a Ansiedade e isto não é de todo uma verdade, basta ver que muitas pessoas fazem uso de medicação e continuam sofrendo de Ansiedade. Os remédios têm sua função e irão certamente contribuir para cessar os sintomas em casos específicos e corrigir algum desequilíbrio químico que possa haver no organismo. Mas é fundamental compreender que a causa da Ansiedade não é apenas biológica, por isso, o uso isolado de medicação não é suficiente em muitos casos. Afinal as nossas vivências e emoções influenciam nos nossos sintomas, por isso além da medicação é preciso passar por uma psicoterapia e entender o que está causando seus sintomas.

7) BENEFÍCIOS SECUNDÁRIOS OU O EFEITO POSITIVO DO SINTOMA –

Este é o tema mais complexo de ser abordado. Algumas pessoas apesar de realizarem o tratamento de forma adequada não apresentam melhora, nestes casos precisamos ser honestos e avaliar o que a pessoa pode estar obtendo com esse sintoma?
Muitas vezes de forma inconsciente (ou seja não intencional e nem racional) o sintoma está nos trazendo algum benefício, é o que chamamos de efeito positivo do sintoma ou benefício secundário.

Não estou dizendo que a pessoa queira ter o sintoma para ganhar algo, por favor, que isso fique bem claro, mas em certas circunstâncias os sintomas estão nos privando ou protegendo de algo que nos causaria ainda mais dor. Vou dar um exemplo para ficar mais claro:
Uma pessoa, que está em um trabalho sob intensa pressão e odeia o seu ambiente de trabalho começa a ter síndrome do pânico, podemos dizer que esse fator estressante do seu trabalho desencadeou seus sintomas, suponhamos que essa pessoa conseguiu se afastar do trabalho e está em tratamento durante anos com Psicólogos e Psiquiatras, no entanto não vem apresentando melhora dos seus sintomas.

Essa pessoa, então recebe alta da perícia, para voltar ao trabalho, e com isso seus sintomas ficam ainda piores. Podemos perceber, que por mais que os sintomas causem a essa pessoa muito desconforto e sofrimento, ele também ajudou a retirar essa pessoa de uma situação de muito sofrimento (um trabalho do qual ela odiava e era pressionada demais). Em alguns casos, percebemos que o sintoma Não CESSA porque ele tem a FUNÇÃO de proteger essa pessoa de algo que lhe causa ainda mais sofrimento que seus próprios sintomas.

Por isso, se você faz o tratamento adequado e ainda assim não obteve melhora. Eu sugiro que você se pergunte será que meu sintoma está me protegendo de algo que não consigo lidar ainda? Será que meu sintoma não me trouxe algum benefício mesmo sem eu querer?

Este ponto, embora delicado é o que trava a melhora de muita gente, porque a pessoa INCONSCIENTEMENTE tem a crença de que se deixar o sintoma, algo que ela quer evitar “virá a tona” e lhe causará um sofrimento ainda maior. Lembrando que às vezes sozinhos não percebemos a função do nosso sintoma, mas o sintoma só existe porque tem alguma função, em alguns casos é uma intenção positiva.

8) ACHAR QUE É POSSÍVEL ELIMINAR A ANSIEDADE COMPLETAMENTE DA SUA VIDA-
Outro mito que dificulta o tratamento da Ansiedade é achar que pode eliminá-la por completo de sua vida. É impossível eliminar a ansiedade completamente da sua vida, e sabe por quê? Porque a ansiedade está ligada com a proteção da vida, a ansiedade é um estado de apreensão diante de uma ameaça real e concreta e a partir daí nosso organismo se prepara para lutar ou fugir do perigo.

Nenhum tratamento poderá lhe prometer que você nunca mais sentirá ansiedade na vida, a idéia é que sua ansiedade apareça apenas diante de estímulos reais e não a partir “de situações que imaginamos que poderá acontecer ou diante de situações que tememos por desconhecer”, além disso, na Ansiedade “normal” a sua intensidade será adequada e não um extremo desconforto que lhe faz evitar situações da vida.

Digamos que com o tratamento adequado você irá sentir uma ansiedade saudável, aquela que apenas causa um friozinho na barriga diante de uma prova, ou evento social, mas que não atrapalha a sua vida diária. Portanto se você estava bem e sentiu-se ansioso, considere a intensidade da sua ansiedade. Às vezes a pessoa estava bem, sentiu uma “ansiedade normal”, daquela que todos nós vivenciamos em algum momento, porém pelo seu histórico de Transtorno de Ansiedade, a pessoa já se desespera e começa a ter medo de ter uma crise de pânico e esse temor pode acabar desencadeando de fato uma crise. Por isso, é importante saber que não é possível se livrar da ansiedade normal, mas é possível eliminar a ansiedade “anormal”. A grande questão é que a Ansiedade faz parte da vida, por isso precisamos aprender a lidar com ela.

Bom, por hora é isso, estes são alguns fatores observados que dificultam e causam grande sofrimento as pessoas que possuem algum Transtorno de Ansiedade. Cabe lembrar, que os Transtornos de Ansiedade tem tratamento (psicológico e médico) e a partir deles a ansiedade pode ter a função que sempre deveria ter tido “ser uma aliada para nos proteger a vida e não a vilã que nos impede de viver.”
Espero que este texto tenha contribuído de alguma forma para seu entendimento sobre o tratamento da Ansiedade, e se você se identificou com algum desses fatores, que tal pensar como mudar essa situação, de forma a reduzir e eliminar esses sintomas que trazem tanto incômodos e prejuízos para sua vida?

Se achar que eu posso contribuir de alguma forma nesse seu percurso ou se ficou com alguma dúvida, entre em contato comigo.
Sou Tamara Melo, Psicóloga Clínica de Orientação Psicanalítica e atendo adultos e crianças com transtornos de ansiedade entre outros transtornos, em consultório em São Paulo.

CRP:06/124176
E-mail: tamara.lmelo@gmail.com

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Tamara Melo
Possui especialização em Dependência Química pela UNIFESP e Aprimoramento em Dependência Química pelo Centro de Referência de Álcool Tabaco e Outras Drogas. Realiza atendimento adulto e infantil em consultório particular, voltados para dificuldades emocionais e de relacionamento, além dos mais diversos transtornos. Como Psicóloga acredita que todo ser humano carrega dentro de si a capacidade de transformar a sua história, se puder dar sentido a ela. Tem como seu objetivo ajudar as pessoas a encontrar maior equilíbrio emocional para viver melhor. CRP:06/124176



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