Diariamente, observamos pessoas colocando suas próprias vidas em perigo, com consequências fatais instantâneas ou não. Mas não percebemos que em nosso cotidiano somos espectadores e também podemos ser protagonistas de comportamentos suicidas.

A campanha que acompanha o mês de setembro incita reflexões sobre aqueles que dão fim à própria vida. O suicídio é comumente compreendido como um ato planejado conscientemente. Contudo, determinadas formas de se matar passam despercebidas pelo senso comum, sendo consideradas mortes acidentais e involuntárias. Tratando-se, na realidade, de suicídios inconscientes ou indiretos.

Muitas situações não são frutos do acaso, mas manifestações de conteúdos inconscientes do sujeito. Estudando a vida cotidiana, Freud avaliou que algumas mortes acidentais eram, na verdade, suicídios provocados inconscientemente por impulsos autodestrutivos.
As atitudes autodestrutivas que configuram o suicídio inconsciente se caracterizam pelos constantes envolvimentos em atividades perigosas sem que haja a intenção consciente de se machucar ou morrer.

O suicídio inconsciente pode ser observado no consumo excessivo de drogas lícitas ou ilícitas, na imprudência no trânsito, na ingestão de alimentos prejudiciais, na displicência com a própria saúde e na constante exposição a situações de risco decorrentes do trabalho ou diversão. Tais comportamentos são indiretamente suicidas e, disfarçadamente, formas de viver se matando ou tentando morrer. A exposição ao risco de morte não está a serviço da vida.

Mascarados de ações involuntárias e acidentais, os atos falhos – erros, lapsos, descuidos – são manifestações do desejo inconsciente e podem colocar a vida do sujeito em risco. Exemplos disso são as queimaduras acidentais, atropelamentos, quedas frequentes ou uma sequência de acidentes automobilísticos. Esses eventos costumam ser vistos como imprevistos, acasos ou equívocos sem intenções de se ferir, porém os impulsos autodestrutivos fazem parte da constituição humana e se revelam de maneiras e intensidades diferentes em cada sujeito. Para alguns, o desfecho é a morte.

A cultura também reforça os suicídios inconscientes ao legitimar situações em que a vida é colocada em perigo. Cultua-se uma filosofia que orienta a viver o hoje como se fosse o último dia de vida, para pouco se importar e muito desfrutar, sem avaliar riscos. Há desprezo pela vida na autodestruição. O modo como dirigimos, comemos, nos divertimos e trabalhamos é um representante do nosso funcionamento psíquico.

Embora os avanços tecnológicos nos possibilitem maior qualidade de vida, continuamos a nos suicidar. Os olhares se concentram sobre o suicídio consciente. Entretanto, o suicídio inconsciente é praticado todos os dias por inúmeras pessoas com comportamentos autodestrutivos encobertos e, muitas vezes, validados pela nossa cultura. Persistimos em condutas aniquiladoras.

Imagem de capa: Shutterstock/Alliance

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Marciane Sossmeier

Psicóloga clínica com enorme interesse nos processos e mecanismos envolvidos nas interações e comportamentos humanos. Com orientação psicanalítica, mantém uma abordagem integral do ser humano e sua subjetividade.
Graduada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pós-graduanda em Dinâmicas das Relações Conjugais e Familiares pela Faculdade Meridional (IMED). .


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