TELEFONE: Oi, sou eu. Você pode me ouvir?

Quantas vezes você pegou o telefone para ligar, para pedir desculpas a alguém, mas não ligou.

Quantas vezes você teve oportunidade de fazer diferente, mas a deixou passar.

Quantas vezes você pôde adotar uma nova atitude, mas não fez.

E num insight, um pouco tardio, passou pela sua cabeça: “preciso fazer alguma coisa”.

E decidiu ligar para pedir “desculpas”.

Mas, no fundo, você sabe que o seu pedido de desculpas nunca se tratou de curar as feridas do coração de alguém.

No fundo, você sabe que o seu pedido de desculpas nunca foi para aliviar as supostas dores que um dia a outra pessoa sentiu.

Sim, esse pedido de desculpas é para aliviar a sua culpa. O seu remorso. As suas feridas que, mesmo com o passar do tempo, continuam abertas.

As suas feridas continuam em carne viva. Não é!?

As suas feridas ainda sangram.

E é desse pesar, que não passa com o tempo, nem com a distância, que você quer se ver livre.

E você pega o telefone, disca incessantemente o número do telefone, para dizer que o tempo não apaga certos sentimentos.

Mas, segundos depois, uma voz interna lhe diz: “será?! Será que o tempo não apaga certos sentimentos?

Você está em pedaços, quer concertá-los e voltar a ser o que você era antes.

Mas, todas as suas insistentes ligações, vão para a caixa postal.

O que te faz pensar, ainda mais, em todos aqueles momentos.

Momentos em que vocês tinham um ao outro.

É tão típico de você, falar somente de si.

Então, você se ocupa diariamente com centenas de atividades e “compromissos”. Porque você não quer ficar só, não quer pensar em nada.

Mas, para você, o tempo não passa.

Olha para você…

Você acredita MESMO que uma ligação, anos depois, equivale a um “pelo menos eu tentei me desculpar por ter ferido o seu coração?”.

No fundo, você sabe que não fez nem a metade do que poderia ter feito.

Todos aqueles beijos e abraços, sinceros, eram seus. Todas aquelas demonstrações de amor e carinho, eram pra ti.

Mas, e hoje, o que você tem hoje?          

O tempo passou, mas você ainda não está livre.

O tempo passou, mas você ainda não consegue se libertar.

Eu sei que você pensa que todas aquelas ligações, que foram para a caixa postal, foram ouvidas.

Eu sei que você passa horas ao lado do telefone.

Eu sei que, de minuto em minuto, você olha para o telefone. E aguarda ansiosamente o retorno de todas as ligações que você fez até então.

Mas, ao mesmo tempo, você sente que tudo que você disse por telefone parece tão vazio.

Você está com aquela sensação de esvaziamento novamente.

Tudo parece tão sem sentido. Não é!?

Então, você se vê correndo contra o tempo.

Você quer seguir em frente.

Você tenta se relacionar com outras pessoas.

Mas, você ainda lembra do seu passado, que nunca esteve tão presente, quando está nos braços de outra pessoa. E não percebe que busca, em cada uma delas, algum traço que lhe seja familiar. Os traços que não estão em mais ninguém, a não ser no “amor” que você deixou ir…

Todo este esvaziamento repentino te dá uma estranha sensação de loucura.

É essa estranha sensação de loucura que te faz ligar, ligar e ligar…: “atenda, refaça a (nossa) ligação”, você suplica.

E essa sensação de loucura, constante, te faz pensar em tudo que você perdeu quando escolheu deixar o “amor” ir…

Agora, o jeito é aprender a lidar com a falta.

Você está em outro mundo agora.

Você está fora de órbita.

Diante de tal situação (e tamanho desespero), tenta se agarrar num passado, que já não volta mais.

Tocar o “amor” tornou-se algo impossível para você.  Nunca mais.

E mesmo que você ligue umas dez mil vezes…

Não será o bastante, pois você está em caos.

Você está em frangalhos. E terá que se haver com isso.

Você está em completa solidão nessa tarefa.

Afinal, cada um precisa cuidar e curar as próprias feridas.

Sim, é cruel. Eu sei…

Ainda mais quando o mundo está completamente sem cor.

Ainda mais quando tudo parece estar embaçado, frio e distante.

E você olha o horizonte da janela do seu apartamento, e pensa: “o que poderia ter acontecido se…”

Eu sei. Você gostaria de poder dizer: “oi, sou eu. Você pode me ouvir?”.

Só que a única coisa que você escuta é: “chamada perdida, tente novamente ou ligue mais tarde”.

A única voz que você ouve, é do silêncio, que diz: “Nunca mais…”.

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André Nascimento
Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br



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