Por Amy Smolgic

Sempre achei que escrevia melhor quando estava deprimida. Muitos escritores dizem a mesma coisa. Tem alguma coisa em se sentir triste, ansiosa, com raiva. Faz sentido. Você não fica sentado numa sala mal iluminada, ouvindo alguma música do The National e escrevendo poesia sombria quando ama a vida. Felicidade não é algo que você questiona.

A depressão te força a refletir sobre todos os momentos ruins e encontrar uma razão neles. Ou, pelo menos, alguém em quem colocar a culpa, geralmente você mesmo. Quatro anos depois de ser diagnosticada com depressão clínica, fiquei cansada de estar sempre lutando com ela. Aos 22 anos, tentei todos os remédios naturais disponíveis — medicação natural, ioga, livros de colorir — até me sentir sem opções. Eu precisava de uma solução rápida. Cada dia significava ataques de pânico cada vez piores e isso estava me matando lentamente.

Então comecei a usar Lexapro. Tomei 20mg todo dia por 11 meses sem perder nenhuma dose — fora o dia em que acidentalmente tomei dois comprimidos no Ano Novo. Parece que Lexapro também é o remédio que Kanye West usa ѿ ele menciona isso em “FML” quando diz “You ain’t never seen nothing crazier than this n***a when he off his Lexapro”.

Nunca pensei nos efeitos colaterais dos antidepressivos antes de tomá-los, achei que era algo simples, você toma um comprimido, todo dia, e fica bem de novo. Não achei que o remédio ia matar a coisa que mais amo fazer, escrever. No começo, achei que era só meu hábito de procrastinar agindo. Mas comecei a notar uma tendência. Parei de chorar. Fui ao enterro do meu avô e, mesmo estando devastada, eu era a única pessoa lá que não estava chorando. Fiquei tão paranoica que as pessoas fossem me julgar que me enfiei no banheiro, jogando água no rosto freneticamente para dar a impressão de que estava chorando.

Lexapro me transformou num zumbi, passando pela vida sem sentir nada. As coisas que me deixavam com raiva se tornaram irrelevantes. Não senti nem uma pontada de tristeza assistindo o Tom Hanks em Filadélfia. Se você acha que alguma coisa está errada, esse é um sinal claro. Sempre que pegava uma caneta para escrever, eu não conseguia nada. Eu nem conseguia escrever sobre a porra da chuva. Se você é um escritor criativo que não consegue descrever poeticamente a chuva, você está fodido.

O efeito das emoções amenizadas pelos Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (SSRI em inglês) é conhecido como embotamento emocional. Para muitas pessoas isso significa que os antidepressivos vão impedi-las de se sentirem deprimidas, o que é ótimo. Mas para outros, o SSRI pode matar todas as emoções, você gostando ou não.

É um ardil 22. Você toma SSRI para não ficar deprimido, o que funciona, mas não está deprimido porque não sente mais nada. Você sempre perde. Ainda assim, eu não estava chorando até dormir ou ficando ansiosa toda vez que entrava numa sala. Não era isso que eu queria?

Eu gostaria que alguém tivesse me avisado disso [a falta de expressão] antes de começar a tomar antidepressivos.

Eu gostaria que alguém tivesse me avisado disso antes de começar a tomar antidepressivos. Claro, os médicos me disseram que minha vida ia mudar quando eu começasse a tomar SSRI. Mas ninguém falou sobre o preço emocional que o “não sentir” teria. Eu conseguia lidar com as confusões mentais, a tontura constante e a insônia. Mas perder minhas emoções foi como morrer por dentro.

A criatividade é subjetiva, por isso é difícil medi-la com precisão. Mas na internet encontrei pesquisas que tentaram entender a ligação entre se sentir mal e ser criativo. O psicólogo social Madupe Akinola, da Universidade Columbia, encontrou uma correlação entre as duas coisas.

Trabalhando com Wendy Berry Mendes da Universidade de Harvard, Akinola pediu que estudantes escrevessem suas aspirações de carreira. Aí os estudantes recebiam um feedback positivo ou destruidor. Depois disso, os estudantes criaram colagens artísticas. Acontece que os participantes que receberam feedback negativo — e se sentiram na merda por causa do que os pesquisadores chamaram de “rejeição social” — fizeram colagens mais criativas do que aqueles que não foram afetados.

Decidi parar com o Lexapro umas seis semanas atrás. Não foi um caso de “largar o remédio”. Depois de pesar os prós e contras, decidi que era hora de desistir. A droga funcionava bem demais. Algumas pessoas querem se sentir emocionalmente dormentes, mas eu não era feita para essa vida. Eu sentia falta de ser criativa.

Dois dias depois, as emoções voltaram com tudo. Mas passei um mês com síndrome de abstinência. Eu sentia fadiga extrema, choques elétricos aleatórios e mudanças repentinas de humor. Foi difícil, mas não me arrependo de ter parado.

Não me recuperei da depressão, e não sei se vou um dia me recuperar. Mas sinto que estou numa posição muito melhor do que um ano atrás. Acho que aprendi a canalizar criativamente todas essas emoções negativas que costumavam me sobrecarregar. Acho que aprendi que meu eu artístico e meu eu humano não são duas coisas separadas — você não pode ignorar um por medo de perder o outro. Tem que haver um equilíbrio.

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Tradução: Marina Schnoor

Imagem de capa: Shutterstock/Ai825

TEXTO ORIGINAL DE VICE

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