Por Karine Wenzel

coordenadora da Comissão de Estudo e Prevenção de Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria, Alexandrina Meleiro, reforça a importância do papel de pais e educadores na hora de identificar os sinais e ajudar na prevenção ao suicídio. E ela vai além, para prevenir deve-se ter um cuidado durante todo o desenvolvimento da criança até “remodelar toda engenharia e arquitetura de uma cidade”.

Há uma dificuldade maior da sociedade em aceitar falar sobre o suicídio entre crianças e adolescentes?

Em qualquer faixa etária já é muito difícil, ainda mais criança e adolescente. E no Brasil, nesta última década, tem aumentado assustadoramente o suicídio nessa faixa. E olha que nós imaginamos que esse número é subestimado. Não há estatística fidedigna porque no preenchimento do atestado de óbito não há nenhum campo específico para suicídio. Então, às vezes, é computado como causa externa. Uma queda de altura ou uma intoxicação podem ficar como causa externa.

Quando a criança passa a ter noção das consequências da tentativa de suicídio?
Depois de nove, 10 anos, a criança passa a ter noção da irreversibilidade da morte. Mas é muito comum a gente lidar com a criança e ela ouvir dos pais ou de quem cuida dela ¿por que você nasceu?¿, ¿você não presta¿. Ela ouve essas palavras depreciativas, passa a desenvolver a baixa autoestima, às vezes comportamento compulsivo, e toma uma atitude drástica. Ainda mais numa época que tem muito lar desfeito, ela pode não se sentir amada e favorecer as ideias de acabar com a vida.

O que leva essas crianças e adolescentes a tentar o suicídio?
É uma complexidade, a gente nunca fala em causa única, em qualquer faixa etária. Mexe na autoestima da criança ou adolescente que passa por bullying. As que passam por assédio moral, sexual, violência doméstica, isso também aumenta o risco. Mas não é só isso. Aí pode ter desajuste de transtorno de depressão, ansiedade, abusar de drogas. A maconha, o crack, o álcool e outras drogas também favorecem a depressão e a ideação suicida. Se eles já têm uma genética, isso é exacerbado.

Dá para estabelecer um perfil mais suscetível ao suicídio?
Entre os adolescentes, os meninos são mais suscetíveis ao suicídio, as meninas tentam mais. Uma gravidez na adolescência é fator de risco se a família não der o apoio ou não for desejada, por exemplo. Toda prevenção do suicídio é bastante complexa, tem que acontecer durante todo crescimento da criança. Se a pessoa tem traços genéticos para qualquer doença do comportamento (esquizofrenia, depressão, pânico), quanto mais cuidado tiver, menor a propensão de manifestar a doença. Mas se durante a infância e adolescência ela passa por situações de estresse, como abuso, violência, perda de familiares, isso ocasiona mudanças na carga genética que vai acentuar aquele traço trazido na bagagem. Então é importante perceber os sinais, evitar abuso de drogas, evitar acesso aos meios como armas de fogo, altura. Tem que colocar proteção nos apartamentos, determinados locais são famosos pela altura e que facilmente chamam para um impulso suicida. Pensar em prevenção seria remodelar toda engenharia e arquitetura de uma cidade. Aí tem que ter assistência médica, psiquiátrica, medicação, terapia, coisa que na atualidade no Brasil deixa muito a desejar.

 

* Esta reportagem segue a cartilha da Associação Brasileira de Psiquiatria sobre como abordar o tema suicídio na imprensa e recebeu orientação da Associação Catarinense de Psiquiatria.

Imagem de capa: Shutterstock/Africa Studio

TEXTO ORIGINAL DE DC

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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