Tomara que falte!

Outro dia, uma aluna do curso de Psicologia me perguntou se eu tinha dias em que eu sentia que não queria determinado paciente. “Você às vezes torce para o paciente faltar à sessão?” Percebi a angústia no olhar da aluna, angústia própria de quem está começando a atender na escola clínica da sua faculdade e que morre de medo de “não ir com a cara” do paciente.

Pensei muito sobre o assunto e respondi a aflita aluna que eu tinha que ser sincera com ela: claro que haveria dias em eu torceria para isto acontecer. Mas eu precisava prestar atenção a estes dias, e o que estava por trás da minha resistência.

Todos nós sabemos que o psicólogo é um ser humano e, como tal, tem seus altos e baixos. Também tenho dias em que quero ficar na cama. Dias de que me sinto inspirada e dias que não quero falar com ninguém. A questão, falei para a aluna, é perceber se o problema está em mim ou no que o paciente produz em mim. A psicologia tem um termo para isto. Se chama contratransferência. E para entender a contratransferência, é preciso primeiro entender o que é transferência.

Logo que você começa a atender, você aprende sobre a transferência. Transferência é tudo aquilo que o paciente irá sentir pelo psicólogo. Ele literalmente transfere para o psicólogo sentimentos que geralmente não tem nada a ver com o pobre coitado. A transferência é o deslocamento do sentido atribuído a pessoas do passado para pessoas do nosso presente. Esta transferência é executada pelo nosso inconsciente. Em uma terapia esse fenômeno é fundamental para o processo de cura, e o psicólogo precisa bancar esta transferência para ajudar o paciente a entender o que está acontecendo.

Do outro lado da moeda, existe a contratransferência. Entende-se por contratransferência as emoções que o terapeuta experimenta no decorrer de uma análise em relação ao paciente, e que são relacionadas com circunstâncias sentidas na sua própria vida, que o afetaram consciente e inconscientemente. Tal como os pacientes têm transferência, os terapeutas e analistas têm contratransferência. Um não vive sem o outro. A diferença aqui é que o paciente não tem que bancar os sentimentos do psicólogo.

E aí que está o “x” da questão e a que todo psicólogo tem que estar atento. A minha resistência é porque estou tendo um dia mal e não quero ver ninguém, ou porque aquele paciente específico está gerando sentimentos em mim de repulsa e naquele momento não o quero ver?

Caso a resposta seja sim para a primeira pergunta, aconselho a tirar um dia de folga e resolver o que te aflige. Dormir um pouco mais. Fazer algo que goste e então voltar no dia seguinte inteiro para o paciente. Afinal, ele não tem nada a ver com os seus problemas. Pode um médico doente atender alguém? O psicólogo também não. Não comprometa o processo do seu paciente por questões pessoais suas. Esteja em consultório 100%. Me lembro que uma supervisora me disse logo quando eu comecei a atender: “aprenda a separar os seus problemas. Deixe todos eles na porta e vá atender seus pacientes. Quando acabar o seu dia, pegue-os de volta e vá resolvê-los.” Nunca me esqueci disto e desde então é o que eu faço.

Agora, caso a resposta seja positiva para a segunda pergunta, não tenho outro conselho além de: trate isto em terapia. Seja qual for a questão que seu paciente traga e isto de alguma forma te incomoda, tem a ver com você, e não com ele. Então se trate. Procure entender o que está mexendo em e com você. Se for insuportável e você não der conta de lidar, encaminhe seu paciente para outro profissional, com todo o respeito e ética que deve ser tomado. Não prejudique seu paciente por questões pessoais suas. E não se fira nem se culpe por não conseguir lidar com esta questão no momento.

Lembra? Você psicólogo, também é um ser humano. Alguém com um passado, feridas, dores e traumas. Alguém que também está em processo e em terapia (assim espero). O fato é que vira e mexe algo vai esbarrar em alguma coisa que te incomoda. Algumas vezes será tranquilo lidar em terapia e o processo com o paciente pode continuar normalmente. Mas algumas vezes, será muito angustiante. E quando isto acontecer, tenha a sabedoria, a humildade e a ética de perceber que você também precisa de cuidados. Assim, todo mundo sai ganhando, paciente e psicólogo.

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Debora Mendes de Oliveira
CRP: 06/123470. Psicóloga clínica (UNIP 2014), com ênfase psicanalítica, com experiência em atendimento voltado para abuso sexual, transtornos psiquiátricos tais como depressão e ansiedade, compulsão por internet e compulsão alimentar. Nas horas vagas é escritora por diversão.



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