Um novo olhar sobre a velhice

Durante muitos anos o atendimento mais comum para o idoso foi o asilo, um recurso reconhecido pela necessidade de abrigo e proteção por abandono ou inexistência do grupo familiar.

A partir dos anos 70, com a aceleração do processo de envelhecimento no país, vão sendo criados recursos para atender às necessidades e anseios manifestados pelo número crescente de idosos. Tanto os recursos institucionais, como os comunitários se dirigem à integração do idoso na sociedade. A partir do momento em que o idoso fica dentro de casa, ele perde a iniciativa, a capacidade de fazer novas relações, a criatividade desaparece e eles passam a produzir várias doenças físicas e psicológicas.

Para atender esta crescente população idosa, com a promoção da saúde, surgiram aos poucos programas e atividade física e serviços para a terceira idade. Estes grupos têm origem na comunidade e proporciona a ressocialização e o exercício da mobilidade, com opções para que os idosos se sintam independentes e tome suas iniciativas próprias. Abordar-se-á a atividade física no capítulo III.

A família sofreu transformações do ponto de vista sócio-econômico, mas ainda se constitui em um núcleo de apoio e atende às funções de socialização, cuidado, proteção e ajuda econômica para com os idosos.

Quando a idade avança, as condições do idoso o submetem à fragilização e atingido este quadro, os membros da família devem estimular sua independência, valorizando a capacidade física e intelectual que ele ainda possui. Até meados do século XX, os psicólogos deram pouca ou nenhuma atenção ao desenvolvimento do adulto na segunda metade da vida. Grande parte dos estudos da psicologia se concentrava na juventude, baseados na ideia de Sigmund Freud de que a personalidade se forma na infância e permanece  relativamente idêntica durante a idade adulta.

Carl G. Jung lançou os alicerces de uma psicologia analítica voltada para a idade adulta ao defender a ideia de individuação, processo que se dá ao longo de toda a vida – e pelo qual nos tornamos os seres humanos completos que estamos destinados a ser. Pois, dizia ele, que nenhum de nós vem ao mundo por acaso, tendo a vida um uma finalidade única.

Ao considerarmos que o envelhecimento não ocorre baseado em um plano-mestre, mas sim como resultado de eventos ao longo da história de cada um, destacamos estas Teorias Biológicas do Envelhecimento. ( HAYFLICK, 1994:225. )

-Alteração na aparência e nas capacidades das pessoas que envelhecem.

  • A pele frequentemente torna-se enrugada, seca e seborréica e aparece ceratose actinica;
  • O cabelo torna-se grisalho e mais fino; a calvície acentua-se;
  • A deterioração dos dentes provoca sua queda;
  • A altura e o peso tendem a diminuir;
  • As cavidades toráxicas e abdominal aumentam;
  • As orelhas alongam-se e o nariz alarga-se;
  • As células adiposas invadem a musculatura e a força

muscular diminui;

  • A postura e altura são afetadas por alterações músculo-esqueléticas;
  • A densidade óssea diminui, influenciada por sexo e raça;
  • Há alteração na absorção, distribuição, excreção e na cinética de ligação de drogas
  • Há perda de células insubstituíveis, principalmente no cérebro, coração e músculos;
  • A musculatura esfriada diminui aproximadamente pela metade aos 80 anos;
  • Há declínio de neurotransmissores como dopamina, noradrelina, serotonina, hidroxilase e acetilcolina; aumento de monoaminoxidase (MAO).

2.5.- Alterações na personalidade do idoso

1-       Redução da capacidade de controle dos afetos;

2-       Irritabilidade;

3-       Depressão;

4-       Desconfiança;

5-       Susceptibilidade;

6-       Autoritarismo;

7-       Rigidez;

8-       Apego ao passado, tendência a idealizá-lo;

9-       Misoneísmo (aversão ao novo);

10-     Propensão ao isolamento;

11-     Misantropia (aversão à sociedade, a outras pessoas e à convivência);

12-     Preocupação excessiva com a propriedade e a segurança;

13-     Dificuldade de adaptação a situações novas;

14-     Conflito habitual com as gerações jovens;

15-     Consciência de dificuldades aumentadas na aquisição de conhecimentos;

16-     Redução dos interesses;

17-     Tendência a ocupar-se repetidamente dos mesmos temas;

18-     Recusa em aceitar o envelhecimento e em reduzir seu estilo de vida e suas possibilidades.

Ao considerarmos que o envelhecimento não ocorre baseado em um plano-mestre mas sim como resultado de eventos ao longo da história de cada um, destacamos estas Teorias Biológicas do Envelhecimento. ( HAYFLICK, 1994:225. )

1-       Teoria da Exaustão – o corpo contém uma quantidade fixa de energia que é gradualmente dissipada, desenrolada como uma corda de relógio.

2-       Teoria da Acumulação – o material deletério que se acumula dentro das células acaba por matá-las com o correr do tempo (ex: lipofuccina ou corpos de hirano). Desenvolve-se tardiamente na vida.

3-       Teoria da Programação Biológica – as células são geneticamente programadas para viver por um período específico de tempo, morrendo inevitavelmente após o término desse tempo.

4-       Teoria do Erro – com a senescência, alterações ocorrem na estrutura da molécula do DNA (ácido desoxirribonucléico). Quando os erros são transmitidos para o RNA (ácido ribonucléico) mensageiro há um grande desenvolvimento de enzimas de defesa que levam, finalmente, à morte da célula e do organismo.

5-       Teoria da Eversão  (ligação cruzada) – há uma mudança nas ligações que unem as cadeias de polipeptídeos do colágeno, assim tornando-o menos permeável e elástico e, portanto, menos capaz de manter a vida normal.

6-       Teoria Imunológica – com o tempo, há uma redução nos mecanismos protetores do sistema imune, que podem se tornar autoagressivos, levando à destruição dos tecidos corporais.

7-       Teoria do “Relógio do Envelhecimento” – diz-se que este “relógio” reside no hipotálamo. O hipotálamo é fundamental para uma variedade de funções endócrinas e cerebrais e a perda de células neste local  tem um papel particularmente importante no declínio dos mecanismos homeostáticos com a idade.

8-       Teoria dos Radicais Livres – os radicais livres podem causar danos ao DNA. A ligação cruzada do colágeno e o acúmulo de pigmentos da idade são causados por radicais livres (moléculas com elétrons ímpares que existem normalmente no corpo, bem como produzidos por radiação ionizante, ozônio e toxinas químicas.

Recentemente, o cientista Giusepe Attardi do Instituto de Tecnologia da Califórnia e outros pesquisadores na Itália, em artigo na Science, informam ter encontrado um tipo de mutação genética relacionado com o envelhecimento em geral. Esta descoberta poderá comprovar que, pelo menos em termos, a velhice é resultado de mutação no DNA, que acreditam possam ser atribuídas à ação dos radicais livres ou a um cansaço do sistema de auto-reparação das próprias células. (23.10.1999:12.Ciência.JB).

É difícil determinar o início do período final da vida, quer sob o ponto vista médico, quer sob o ponto de vista social.

Se para uns a idade da aposentadoria marca o seu começo, para outros ela é arbitrariamente fixado aos 75 anos. Para outros, ainda, o aparecimento dos primeiros sinais de dependência é que evidencia a entrada definitiva neste tempo de declínio.

Dentre os mitos médicos sobre o envelhecimento há o que diz que a velhice começa aos 65 anos de idade. Esta é a ideia que poderia ser chamada de ‘envelhecimento burocrático’. Com a necessidade de estabelecer um limite exato para a concessão de benefícios e aposentadorias, para a estratificação de dados populacionais e outros é que surgiram os números ‘mágicos’ de 60 e 65 anos de idade para limitar as faixas etárias de adultos e idosos. Por que não 61, 63?

Os maiores efeitos do estabelecimento de uma idade delimitadora parece ser a “comodidade burocrática” e a considerável carga psicológica colocada sobre os indivíduos ao serem rotulados de ‘velhos’ ou  ‘idosos’, com todas as consequências pessoais, sociais e culturais que advém disso.  (JACKBEL NETO 1996:15)

Ao se desvincular da vida pública para mergulhar num mundo particular e privado, o idoso se vê excluído do espaço mais amplo em que se movia até então. Marginalizado, confinado aos estreitos limites para onde a sociedade o expulsa, vai perdendo socialmente uma identidade conhecida para mergulhar numa espécie de limbo. Agora é um aposentado  e deve se retirar para a quietude de seus aposentos, se deixar ver o menos possível e criar à sua volta um silêncio respeitoso seguindo a mesma trilha de todos os outros velhos excluídos. Pode parecer exagerada a afirmação, mas não há qualquer dúvida quanto à realidade: a sociedade rejeita aquele que não mais produz e já não gera riqueza. É nossa cultura que despreza e agride homens e mulheres envelhecidos, sua memória e conhecimento para aceitar apenas o velho que ainda contribui de alguma forma para o crescimento. Assim são aceitos políticos, artistas e criadores em geral, porque eles continuam como força atuante e modificadora.

Na velhice, a diminuição do poder aquisitivo, a solidão, a perda de identidade, o não acolhimento da singularidade e da diferença deste tempo de vida, tudo contribui para enfraquecer ainda mais o idoso, já destituído de seus papéis sociais. Na própria família, ele é segregado desde que não seja mais útil e produtivo. Esta violência contra o idoso tem crescido com o pensamento da atualidade, onde só é aceito quem é belo, atraente e rico.

Cada pessoa, ao longo de sua trajetória existencial, vive de modo singular suas mudanças biológicas, psicológicas, intelectuais e espirituais, compondo assim o seu ciclo de vida. E é esta composição que poderá garantir a experiência de envelhecer sem a fragmentação consequente das transformações internas e externas que ocorrem em cada ser, mais acentuadamente, à medida que envelhecem. Durante nossa vida, o corpo vai gradativamente se desgastando, mas a mente tem a capacidade de tornar-se cada dia mais viva e ativa.

O envelhecimento exprime ao mesmo tempo uma ideia de perda e outra de aquisição. Nossa sociedade reserva à juventude o benefício e à velhice o déficit.

Um dos aspectos do envelhecimento, a aquisição, concerne a história de vida do indivíduo, enquanto a perda, – outro elemento que é citado com mais frequência – se refere ao que é mais visível, e surge da dificuldade em discernir o limite entre o envelhecimento normal, o patológico e o patogênico.

O envelhecimento, como processo normal, é a expressão da temporalidade da pessoa, adere à história de sua vida. Envelhecemos como vivemos, nem melhor, nem pior. Trata-se de uma questão de equilíbrio entre aquisição/perda. (JACK DE MESSY,1992:16).

A capacidade do homem de reconhecer a limitação de sua existência e agir em conformidade com essa descoberta pode ser sua maior conquista psicológica. A aceitação da transitoriedade é efetuada pelo ego, que realiza o trabalho emocional que precede, acompanha e segue as separações. Sem esses esforços não se poderia alcançar uma concepção válida do tempo, dos limites e da inconstância das catexias.

Mas a vida, como dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, “está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso”. (FERREIRA, 1997 :360.)

A natureza faz lentamente o seu caminho e o corpo vai pouco a pouco se adaptando às limitações inerentes ao tempo vivido. Do velho não se exige a força física e as leis e costumes o dispensam dos encargos que pedem mais vigor.  Perdidos os prazeres da boa mesa e do perfeito desempenho sexual, restam possibilidades de substituição por outros prazeres em tempos de urgência e fazeres atropelados.O cuidado com o físico é primordial para a sensação de segurança e bem-estar.

Sendo a vida o solo nutriente da alma, não podemos perder o contato com o contínuo vir-a-ser no estar vivos. Quem fracassar em acompanhar o processo de vida, ficará suspenso, tenso e rígido, olhando para o passado como se fosse a única razão de engajamento. Assim, as pessoas se retiram ou são retiradas do processo vital, fixando-se em recordações com um medo secreto da morte.

Mas a velhice longe de ser passiva e inerte pode ser sempre atarefada e fervilhante, ocupada em atividades relacionadas com o gosto de cada um. Pois a vida não é uma operação passiva e um organismo tem de se abrir e sair em busca daquilo que precisa – tornando a vida um exercício de busca e exploração de todos os possíveis.

Para Alexander Lowen, (1975:50)

 “uma pessoa é a soma de suas experiências da vida, cada uma das quais é registrada na sua personalidade e estruturada em seu corpo”.

A leitura do nosso corpo é uma leitura infinita. O registro corporal é, sem dúvida, aquele que fornece as características da pessoa de idade avançada: cabelos brancos, ou calvície, rugas, reflexos menos rápidos, compressão da coluna vertebral, enrijecimento.

E como ninguém existe fora do corpo vivo, é através dele que nos expressamos e nos relacionamos com o mundo à nossa volta. Se somos nosso corpo e nosso corpo somos nós, ele poderá expressar quem somos e dizer de nossa forma de estar no mundo. O corpo é um sistema energético e a energia está envolvida no movimento de todas as coisas, tanto vivas quanto inertes.

 

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Fernanda Villas Boas
Fernanda Luiza Kruse Villas Bôas nasceu em Recife, Pernambuco, no Brasil. Aos cinco anos veio morar no Rio de Janeiro com sua família, partindo para Washington D.C com a família por quatro anos durante sua adolescência. Lá terminou o ensino médio e cursou um ano na Georgetown University. Fernanda tem uma rica vida acadêmica. Professora de Inglês, Português e Literaturas, pela UFRJ, Mestre em Literatura King´s College, University of London. É Mestre em Comunicação pela UFRJ e Psicóloga pela Faculdade de Psicologia na Universidade Santa Úrsula, com especialidade. Em Carl Gustav Jung em 1998. É escritora e psicóloga junguiana e com esta escolha tornou-se uma amante profunda da arte literária e da alma, psique humana. Fernanda Villas Bôas tem vários livros publicados, tais como: No Limiar da Liberdade; Luz Própria; Análise Poética do Discurso de Orfeu; Agora eu era o Herói – Estudo dos Arquétipos junguianos no discurso simbólico de Chico Buarque e A Fração Inatingivel; é um fantasma de sua própria pessoa, buscando sempre suprir o desejo de ser presente diante do sofrimento humano e às almas que a procuram. A literatura e a psicologia analítica, caminham juntas. Preenchendo os espaços abertos da ficção, Fernanda faz o caminho da mente universal e daí reconstrói o caminho de volta, servindo e desenvolvendo à sociedade o reflexo de suas próprias projeções.



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