Uma conversa sobre suicídio pode ser um convite à vida

Por Amanda Mont’Alvão Veloso

Conversar, botar pra fora, desabafar, expulsar o que incomoda.

O poder da palavra é inegável, e os efeitos da fala incluem a possibilidade de se pensar diferente, de se querer tomar uma decisão e a inspiração para uma mudança. Ou, simplesmente, alívio do sofrimento.

“Conversar é uma possibilidade que temos para desabafar e colocar para fora as emoções que temos aprisionadas, ajudando-nos a elaborar melhor o nosso raciocínio, muitas vezes comprometido por pressões interiores”, descreve ao HuffPost Brasil Carlos Correia, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade sem fins lucrativos que oferece apoio emocional gratuito e voluntário e prevenção do suicídio há 54 anos, com atendimento por telefone, email, Skype e chat. As formas de contato estão detalhadas aqui.

O número 141, que funciona 24 horas, e os demais canais do serviço são acionados por pessoas que estão com ideias de suicídio e também por uma sensação profunda de solidão. São, portanto, ligações originadas do desamparo e do desespero, e que são atendidas com acolhimento e empatia. O atendimento é completamente sigiloso.

“A conversa de que estamos falando e que é praticada no CVV é acolhedora, sem ameaças e sem julgamentos. Essa pessoa que se sentia solitária, isolada da sociedade, percebe que pode contar com alguém, que existe gente que se preocupa com ela. Tudo isso oferece a possibilidade de se dar uma nova chance, de enxergar que há opções além da própria morte.”
“Grupos de ajuda telefônica têm se mostrado úteis porque a pessoa se sente acolhida e pode dividir seus conflitos com ouvintes preparados que, por sua vez, podem facilitar encaminhamentos”, destaca o psicanalista Roosevelt Cassorla, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor da Unicamp.

Correia, do CVV, é também membro da Comissão Nacional de Divulgação da entidade, que realiza neste mês a terceira edição da campanha nacional Setembro Amarelo. A mobilização tem seu ápice no dia 10, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Além disso, a entidade organizou o 6º Simpósio Internacional de Prevenção do Suicídio, que ocorre nesta sexta-feira (9) em Fortaleza (CE). O evento gratuito promove debates e a conscientização sobre o assunto.

Acolhimento, sinceridade e espontaneidade são palavras de ordem no CVV. A orientação é que se mostre preocupação com a pessoa que está procurando o serviço, respeitando a decisão dela.

“Mas se for necessário, não fugiremos de perguntar se ela pensa em morrer, e a convidaremos para conversar sobre os motivos que a levaram a tomar aquela decisão. Acolher e respeitar essa pessoa é fundamental. Sabemos que, naquele momento, a pessoa está muito fragilizada e querendo se livrar de um sofrimento que parece não ter fim.”
O atendimento precisa ser sensível e delicado, deixando a pessoa à vontade para conversar, completa Correia. Para isso, alguns cuidados são necessários:

“O que não se deve fazer é condenar as ideias e sentimentos dessa pessoa, comparar os problemas dela com o de outras pessoas – ‘tem gente em situação muito pior que a sua’ – ou falar que isso é fraqueza.”
Cansaço é um sentimento bastante frequente por parte da pessoa que procura ajuda no CVV. Segundo Correia, ela se sente isolada e não consegue mais se comunicar com o mundo fora dela.

“Ela vem de um processo intenso de reprimir sentimentos variados, como tristeza, raiva, irritação, mágoa e até mesmo alegria. Isso a leva a uma sensação de solidão muito intensa.”
alberto ruggieri

Anualmente, o CVV faz mais de um milhão de atendimentos, realizados por 2.000 voluntários. As palavras deles, por diversas vezes, convidam anônimas e anônimos a darem uma chance para a vida. O efeito é marcante não só para quem precisou de auxílio, mas também para quem ofereceu.

A pedido do HuffPost Brasil, quatro voluntários compartilharam histórias marcantes de atendimento. Certamente são uma lição de respeito e empatia:

“Toca o telefone, mal termino de falar o ‘CVV Boa Noite’ e do outro lado da linha uma pessoa adolescente indaga, ofegante, aos prantos e desesperada:
– Como faço para me matar mais rápido? Preciso saber. Joguei no Google como faço para me matar mais rápido e apareceu esse número. Você me ajuda a me matar mais rápido?
Acolho o adolescente, que vai acalmando o pranto e a respiração, e então consegue falar da situação que alimenta o desejo de se matar: o término do namoro, a chacota dos amigos, a traição, o sentir-se inferior, as brincadeiras e exclusão da turma, e a perda do sonho de amor. Passado mais de 40 minutos, ele agradece, diz que está enxergando melhor as coisas e vai repensar. Pergunta se pode ligar mais vezes e como funciona o CVV.”

Elaine Macedo, de São Paulo (SP)
“As conversas sempre me tocam muito; várias ligações são relacionadas às perdas que as pessoas têm na vida, e percebo o quanto é difícil para todos, inclusive eu, em lidar com esse assunto e os sentimentos que ocorrem. E essas perdas podem ser de vários tipos: de um ente querido para o suicídio, do emprego, dinheiro, status, poder, beleza, saúde, separação etc, e muitas vezes o recomeço da vida após a perda é muito doloroso.”
– Eliane Soares, de Piracicaba (SP)
“Os atendimentos têm em geral uma carga emocional muito grande. Tem um que me marcou muito não só pela aparente simplicidade da situação, mas também pela percepção que tive da extrema solidão da pessoa que falava. Era uma pessoa idosa que queria apenas ouvir alguém lhe desejar uma boa-noite. A pessoa tinha família, mas morava sozinha e não queria incomodar ninguém, nem mesmo o voluntário. Estava preocupada também em tomar o tempo de outra pessoa que pudesse estar necessitando conversar mais do que ela naquele momento.”
Carlos Correia, de São Caetano do Sul (SP)
“Todas as pessoas com as quais conversei me marcaram de alguma forma como voluntária, aprendi com elas, ouvindo suas histórias, dificuldades, valores e vivências muito diferentes da minha vida. É difícil destacar apenas uma delas, mas acredito que as que mais me impressionam são as situações que ouvi que a pessoa estava se sentindo muito sozinha, apesar de conviver com muita gente, de ter família, amigos e ser bem relacionada.”

– Adriana Rizzo, de Araraquara (SP)
Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV – Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis.

TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST

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