Uma leitura histórica da figura do pai

DÉCADA DE 50

Na cultura rural, o pai desejava o filho como continuação de seu ofício e força de trabalho. Na cultura urbana, o pai é o único que trabalha (provedor). O casamento é validado pela Igreja e pelo Estado. O pai deseja o filho como parte do casamento religioso (“crescei e multiplicai-vos” – é a ordem de Deus para homem, segundo o Velho Testamento). O pai deseja o filho ainda como parte da família legitimada pelo estado, e o filho – novo cidadão – é signo de força de trabalho e continuação da família paterna. O pai, portanto, preocupa-se em como transmitir as noções morais (honestidade, o trabalho como valor, etc.) e a iniciação religiosa.

DÉCADA DE 60

A mulher vai ao trabalho e o pai já não é a única força de trabalho da família. Desaparece gradativamente a figura do pai provedor. Os laços entre a família e a Igreja se enfraquecem – o pai já não é responsável pela iniciação religiosa do filho, mas ainda o vê como a continuação da idoneidade familiar e ainda é responsável pela sua formação moral.

DÉCADAS DE 70 A 90

A figura do pai sofre modificações significativa. Aumenta o número de divórcios e a imagem do pai já praticamente não existe mais no contexto da família. Sem desempenhar mais o papel de provedor, sujeitando-se a jornadas de trabalho mais longas e dividindo a guarda do filho com a esposa, o contato pai-filho afrouxa-se. A função da formação moral do filho é gradativamente delegada à escola, assim como a informação sexual e até mesmo as atividades de lazer.

CONTEMPORANEIDADE

Principalmente na periferia das grandes cidades, o filho já não surge dentro do projeto de um casal, com motivação religiosa e/ou cívica. Na maioria dos casos surge como resultado de um relacionamento sexual eventual, o que compõe a nova estrutura familiar: a criança é criada pelos avós maternos enquanto a mãe sai para trabalhar. A figura do pai oscila entre um comprometimento formal judicial (pagamento da pensão) e o descomprometimento total.

É importante ressaltar que se nas configurações anteriores era o pai quem gerava o filho, na atual é o surgimento inesperado de uma criança que cria, por uma vicissitude biológica, a figura de um pai. Isto é, o pai existe porque nasceu uma criança, e não mais o pai portador de um projeto existencial que inclui gerar um filho.

As consequências do desvanecimento da figura paterna são evidentes: sem figuras que promovam a noção de respeito e limites, as crianças/adolescentes saem precocemente às ruas à procura de referências, e encontram na figura do traficante ou do pastor pentecostal apoios minimamente estáveis para identificação.

O pai biológico, por não ter participado do desenvolvimento emocional do filho como figura de respeito e admiração, encontra na violência a única forma de colocar alguma interdição para o filho adolescente, que a escola expulsa. O tráfico, por sua vez, acolhe (dentro de uma organização frágil), e o adolescente “conquista” sua primeira arma de fogo, superando, assim, o pai na capacidade de agredir e matar.

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Maurício Silveira Garrote
Médico especialista em Psiquiatria Clínica pelo HC FMUSP (1985) e Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, com a tese "De Pompéia aos Sertões de Rosa: um percurso ao longo da Clínica Psicanalítica de pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia" (1999).



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