Você já ouviu falar em Gaslighting?

Ouvi certa feita um depoimento, mais ou menos assim: ” Embora eu não tivesse nenhuma responsabilidade naquilo que estava acontecendo, eu não compreendia a razão dele mudar sua opinião. E até mesmo quando eu não duvidava de que estava certa, a situação era colocada de tal modo que, de repente, eu era a culpada por toda aquela briga. A sensação era de que eu ainda que não compreendesse nada, tinha errado em alguma coisa. Ele ouvia o que eu não havia dito e as vezes me fazia duvidar de mim mesma”.

Muitas mulheres passam muito tempo para perceberem ou a vida toda, que alguém a quem devotam sincero afeto, cometem contra ela algum tipo de abuso emocional. Muitas nem se dão conta, de que seus argumentos são frequentemente rejeitados, preteridos ou menosprezados, com a justifica de que ela “não bate bem da cabeça”.

Em relacionamentos como casamentos, namoros, ou mesmo em família, até entre irmãos podemos presenciar algumas cenas em que há franco desrespeito, menosprezo e a utilização de nomes pejorativos dirigidos a outrem no sentido de humilhar, danificando sua autoimagem. Neste contexto, casamento ou namoro dão lugar às mentiras, traições, acordos descumpridos, reações desproporcionais, violação de privacidade e, claro, várias ameaças de abandono por parte do abusador.

Aquela mesma Senhora que iniciara sua narrativa, com os olhos lagrimejados termina dizendo-me ” Eu sabia que alguma coisa estava errada, mas não conseguia me despedir daquele casamento”. ” Muitas vezes achei que ele tinha razão, eu estava louca”, concluiu.

As marcas do abuso emocional nem sempre são simples de serem detectadas, ao contrário do abuso físico frequentemente perceptível. A característica do abuso começa com pequenas situações de críticas exageradas e observações que descontroem o outro, vão paulatinamente aumentando sem que a vítima se dê conta, muitas vezes já se sentindo sem valor, achando-se sem raciocínio lógico, justificando inclusive os abusos como se fossem merecidos. As vítimas de abuso emocional dão a sensação de que se acostumaram com os maus tratos.

É provável que você nunca tenha se deparado com a palavra “gaslighting”. Vem do filme “Gaslight” – no longa, um homem quer se apropriar da fortuna de sua esposa, engendrando uma forma de que ela veja a si mesma e seja tida por outros como fora de seu juízo normal ou “louca” e no caso do filme ela acaba internada em um sanatório. A expressão “gaslight” faz referência às lâmpadas de gás da casa do casal, programadas pelo homem para desligarem e acenderem repetidamente, para tormento de sua esposa.

Este termo tem relação com o filme, envolvendo abuso emocional, fica mais fácil, finalmente, entender: gaslighting é basicamente o que acontece quando normalmente um homem tenta desestabilizar uma mulher, fazendo-a acreditar que é “louca”, “ruim da cabeça”, “frágil demais”, “burra”, “instável”, “histérica”, etc…

Como identificar um abuso emocional:

As opiniões da vítima são menosprezadas pelo abusador, com frequentes humilhações e críticas infundadas.

É comum a vítima sofrer com piadas cheias de sarcasmo como o propósito de ridicularizar, mostrar descaso ou maltratar a auto estima da pessoa em questão.

O abusador exerce uma espécie de dominação, controle sobre o abusado, deixando nele constrangimento e vergonha.

Recebe críticas constantes e é corrigida ou punida, em razão de seu comportamento tido como “inapropriado”, é tida como inferior. Recebe também acusações artificiais de palavras ou situações irreais.

O abusador, controla as despesas da pessoa abusada, ainda que o valor gasto seja fruto de seu próprio trabalho. Ainda, a pessoa que sofre o abuso sente-se no dever de “pedir permissão” antes de ir a algum lugar ou antes de fazer algo e, inclusive, tomar pequenas decisões.

A pessoa abusada emocionalmente passa a culpar-se por todos os seus problemas ou infelicidade, inclusive do abusador. Torna-se hipersensível a qualquer crítica dos amigos, ainda que construtivas. Retira-se ou retém a atenção ou afetividade. Transforma a relação com o abusador em uma codependência e autoengano.

Você deve estar se perguntando: Como pode alguém se permitir viver nestas condições?

Um dos conceitos mais fascinantes trazidos pela psicologia comportamental para entendermos alguns comportamentos presentes em algumas patologias é o de desamparo aprendido. “O desamparo constitui um déficit específico de uma resposta pela exposição a estímulos aversivos incontroláveis”. Este comportamento foi estudado pelo psicólogo Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia

Seligman fez um experimento : separou os cães em dois grupos. Um dos grupos foi colocado em uma jaula na qual o chão estava conectado a uma corrente elétrica, que disparava de tempos em tempos pequenos choques, incômodos mas de baixa intensidade. O outro grupo foi colocado em uma jaula idêntica, porém, havia um dispositivo aonde eles conseguiam desligar o sistema que provocava os choques facilmente. O segundo grupo podia desligar os choques, enquanto o primeiro grupo tinha que se acostumar com os choques.

Após um período os cães ficaram acostumados às suas jaulas, Seligman mudou-os de ambiente, colocando-os em jaulas, com o mesmo sistema de choques, mas com uma barreira muito baixa, que qualquer um dos animais podia pular sem dificuldade.

Enquanto o primeiro grupo – que não podia controlar os choques – simplesmente não saiu da jaula, o segundo grupo – que conseguia desligar os choques – agiu naturalmente e pulou a barreira para se livrar do incômodo.

Conclusão : o primeiro grupo se acostumou tanto com aquela situação incomoda dos choques ainda que em outro local, não buscava solução fara fugir dos choques.

O desamparo aprendido foi realizado também em inúmeros experimentos com seres humanos. Só para ilustrar, um dos grupos era submetido a um barulho imenso, depois de algum tempo era como se todos pensassem que simplesmente não valia mais a pena tentar sair daquela condição, nem que fosse abaixar uma alavanca para se livrarem do barulho. O estímulo aversivo, o forte barulho, já era uma “realidade” a qual não compensava tentar superar – exatamente o conceito de desamparo aprendido.

Conclusão

O desamparo aprendido nos ajuda a compreensão deste fenômeno de paralisia e aceitação da subjugação do abusador; intensificando na vítima a sensação de “ser e estar indefeso”; o indivíduo aprende que os seus comportamentos e necessidades são pouco importantes, seus desejos têm pouca influência sobre o meio e suas condições de vida; logo, aceita submetendo-se e se tornando cada vez menos ativos até mesmo fisicamente, chegando a apatia e paralisia de ações positivas.

A analogia entre a apatia dos animais e dos seres humanos após a exposição a um intenso estímulo ruim ( aversivo) como o choque no caso do experimento, barulho ou as contínuas humilhações como causa uma possível depressão. Explicada pelo ambiente pouco prazeroso e muito punitivo.

Porém,outros pesquisadores tem deixado claro que a relação de causa e efeito entre a depressão, e outras doenças mentais, não é tão simples assim. Mas, o conceito de desamparo aprendido continua sendo uma referência importante para o tratamento comportamental das doenças mentais.

Referência Bibliográfica:

FERREIRA, Darlene Cardoso  and  TOURINHO, Emmanuel Zagury. Desamparo aprendido e incontrolabilidade: relevância para uma abordagem analítico-comportamental da depressão. Psic.: Teor. e Pesq. [online]. 2013, vol.29, n.2 [cited  2014-03-23], pp. 211-219 .

 




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