Por Arnaldo Cheixas Dias

Carlos chegou a sua casa mais tarde do que o habitual. Sua esposa Neide o esperava acordada sozinha na cama, tentando driblar a insônia entre um livro, a TV e curtidas nas redes sociais. Assim que o marido entrou no quarto, ela disse estar triste por perceber que eles estavam se afastando depois de quase 10 anos de relacionamento. Ela lhe apontou o fato de que eles quase não têm conversado, passam pouco tempo juntos e de que Carlos está até evitando estar a sós com ela. Disse também que se aborrece bastante quando ele não avisa e chega tarde.

Enquanto ouvia as queixas da esposa, Carlos foi se irritando aos poucos. Isso porque ele acha que Neide reclama demais, o que o deixa sem motivação para estar com ela e propor coisas para fazerem juntos. Curiosamente, Neide reclama porque Carlos está ausente e Carlos está ausente porque Neide reclama demais.

Depois de uns 15 minutos de reclamações de Neide, Carlos não suportou mais e explodiu: “Quer saber? Você precisa fazer terapia de casal!”. Neide arregalou os olhos e ambos ficaram se olhando em silêncio por alguns segundos. Abruptamente Neide soltou uma gargalhada e questionou o marido: “Você prestou atenção no que acabou de me dizer? Você disse que EU preciso fazer terapia de CASAL.” Sem entender a risada e a reação da esposa, Carlos ratificou: “Isso mesmo! Você precisa fazer terapia de casal!” Neide, por fim, arrematou: “Xi, já vi que a noite será de uma longa conversa até você entender…”

Carlos não percebeu a incoerência de sua fala, não percebeu que uma terapia de casal só pode ser feita por um casal. Na sua fantasia, os problemas entre Neide e ele acontecem por conta do excessivo estresse dela. Quando ele chega tarde, é justamente porque tem preferido ficar com os amigos a ter de discutir com Neide. Mas o que Carlos não nota é que a resolução dos problemas do casal depende da participação de ambos. Se, por um lado, ele quer que a vida do casal seja melhor, por outro ele atribui toda a responsabilidade pela solução à esposa.

O que falta entre Carlos e Neide é justamente o diálogo. Claro que há elementos em que um e outro precisam melhorar individualmente mas essas mudanças não vão acontecer a menos que eles se mobilizem em colaboração. Do contrário, cada um fará sua própria terapia “de casal” sem que as dificuldades da vida conjugal sejam superadas.

Um convite para um passeio pode ser uma ótima maneira de quebrar o gelo e gerar uma oportunidade para uma boa conversa a dois. Boa sorte!

Imagem de capa: Shutterstock/SpeedKingz

TEXTO ORIGINAL DE VEJA SP

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


Compartilhar

RECOMENDAMOS


Psicologias do Brasil
Informações e dicas sobre Psicologia nos seus vários campos de atuação.

COMENTÁRIOS