Marcel Camargo

Não guardo mágoas, mas não sofro de amnésia

Nossa sobrevivência e lucidez emocional em muito dependerá daquilo que resolvermos guardar dentro de nós e de tudo o que estivermos mantendo junto a nossas vidas. Quanto mais peso, quanto mais mágoa, quanto maior a dificuldade em sorrir, menos forças teremos para buscar a felicidade que tanto desejamos. Prosseguir sempre implicará deixar para trás o que for inútil, mesmo que doa, de início.

Tentar dar certo, no amor, na amizade, na profissão, é necessário, porém, jamais poderemos nos estender além dos limites de nossa dignidade nesse caminho. Não somos acostumados a perder, em nenhum setor de nossas vidas, pois queremos sempre acertar e fazer as escolhas certas. No entanto, isso não pode, em hipótese alguma, impedir-nos de desistir de coisas, de pessoas, de situações que não mais se sustentam.

Infelizmente, seremos surpreendidos negativamente em muitos momentos de nossa jornada, porque simplesmente nem todo mundo nos entenderá, nem todo mundo pensará como nós, nem todo mundo trará retorno por tudo o que oferecermos. Seremos mal entendidos, nossas palavras serão mal interpretadas, usarão nosso melhor da pior forma. Amargaremos muitas decepções e de quem mais amamos, de quem menos esperávamos.

Logicamente, ficaremos muito magoados e juntaremos raiva e mágoa à decepção, pois, num primeiro momento, perderemos o chão e nada parecerá fazer sentido. Com o tempo, porém, será necessário digerir, aos poucos, as mágoas que carregamos, no sentido de torná-las cada vez mais distantes, menos pesadas, menores, até que se transformem em lições. Sim, lições de tudo o que deveremos evitar e de todos de quem deveremos nos distanciar.

Por essa razão é que não precisamos esquecer o mal que nos fizeram, mas sim retirarmos dele forças para que não mais nos façam o que tanto nos magoou, para que não mais sejamos enganados, passados para trás, traídos, diminuídos, nunca mais. Juntar mágoa paralisa e enfraquece, mas transformar cada experiência em fortalecimento emocional é o que nos tornará mais aptos a enxergar em cada novo dia uma nova chance de ser feliz.

Imagem de capa: Dmitry Zimin, Shutterstock

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".

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