Psicologia e comportamento

Nem hétero, nem bi? O termo “heteroflexível” está se espalhando… e os números mostram isso

Se, anos atrás, muita gente só conhecia “gay”, “hétero” e “bi”, hoje o vocabulário virou parte da conversa comum — principalmente porque as pessoas passaram a descrever com mais detalhe como se atraem, como se relacionam e como vivem o desejo.

“Heteroflexível” entrou forte nesse cenário: é um rótulo que aparece cada vez mais em apps, redes sociais e conversas do dia a dia, mas ainda deixa muita gente com cara de “tá, mas o que isso quer dizer?”.

Na prática, “heteroflexível” costuma ser usado por quem se entende como majoritariamente heterossexual, mas reconhece que pode rolar atração, interesse ou envolvimento com alguém do mesmo sexo em certas situações.

Não é uma caixinha fechada, nem vem com “regras” — é mais um jeito de sinalizar tendência e abertura do que uma declaração com checklist.

Esse termo também aparece como um meio-termo para pessoas que não se veem como bissexuais, mesmo tendo exceções ou momentos de atração fora do padrão hétero.

Para algumas, faz sentido porque elas vivem a maior parte da vida afetiva em relações heterossexuais, mas não querem apagar o que sentem quando surge uma conexão diferente.

Só que “heteroflexível” não descreve todo mundo do mesmo jeito. Tem gente que sente a abertura mais no campo emocional — tipo se permitir uma aproximação, um flerte, uma intimidade — e não necessariamente quer (ou chegou a ter) experiências sexuais.

Outras pessoas se sentem mais à vontade em contextos específicos, como relações casuais, dinâmicas não monogâmicas, ambientes de festa ou encontros em grupo, sem que isso mude como elas se apresentam no cotidiano.

Os aplicativos de relacionamento ajudaram a empurrar essa palavra para o centro do palco, porque ali o rótulo vira uma informação direta: “é isso que eu procuro/aceito/posso viver”.

Um exemplo é o Feeld, app conhecido por reunir públicos interessados em não monogamia ética, poliamor e arranjos fora do namoro tradicional. No relatório anual “Feeld Raw 2025”, a plataforma afirma que “heteroflexível” foi a sexualidade que mais cresceu no app, com alta de 193% em um ano.

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Um ponto curioso desses dados é que a adesão não fica restrita a uma faixa etária só. No mesmo recorte, o Feeld aponta millennials como o grupo que puxa esse crescimento, com a geração Z vindo logo atrás.

Ou seja: não é “moda adolescente”; é uma autoidentificação que também aparece com força entre adultos que já viveram bastante coisa e agora preferem um termo que encaixe melhor.

Para aprofundar o tema, o Feeld já trouxe comentários do filósofo e pesquisador Luke Brunning (University of Leeds), que estuda amor, sexo e relacionamentos.

A leitura dele vai na linha de que, em muitos ambientes, a curiosidade e a flexibilidade ficaram menos “proibidas” do que eram antes — e isso abre espaço para mais gente nomear desejos que já existiam, mas eram engolidos por vergonha, pressão social ou medo de julgamento.

Ainda assim, o termo gera discussão — e não é difícil entender por quê. Para algumas pessoas, especialmente homens, assumir qualquer atração fora do roteiro hétero ainda pode virar alvo de cobrança, desconfiança e piada, o que faz muita gente preferir um rótulo que pareça “menos comprometedor”.

Em paralelo, parte da comunidade LGBTQIA+ critica a heteroflexibilidade quando ela é usada para fugir do termo “bissexual” por puro receio de estigma, já que isso pode acabar reforçando apagamento bi.

Outra correção importante: apesar de parecer um termo “novíssimo”, a palavra não nasceu ontem.

Textos e discussões sobre “heteroflexível” circulam há décadas (com popularização a partir dos anos 1990 e 2000), e o assunto voltou com força agora por causa de redes sociais e plataformas de relacionamento que colocam identidade como campo de perfil.

E tem o espelho desse conceito: “homoflexível”, usado por quem se identifica principalmente como homossexual, mas admite exceções ou abertura para atração por alguém do sexo oposto.

No fim das contas, esses termos existem porque muita gente prefere descrever o próprio padrão de desejo com nuance — sem tratar atração como algo fixo, igual e previsível a vida inteira.

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Gabriel Pietro

Redator com mais de uma década de experiência.

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