A voz está em silêncio, mas o corpo fala

Início do atendimento psicológico, paciente entra no consultório com as mãos trêmulas, a voz embargada, olhar distante e fixo por mais de trinta minutos. Quando desvia o olhar para mim, começa a chorar um choro de alívio e ao mesmo tempo medo, misturado com angústia e desabafo. Respira fundo e tenta falar, diz: “Sofri abuso tanto corporal quanto psicológico. O homem era uma pessoa muito próxima, um homem de postura séria, casado, com filhos. Quando aconteceu, não tive condições de trabalhar e nem dormir naquela noite, imaginava o tempo todo aquele homem dentro de casa em pé na frente da minha cama olhando para mim. Fiquei angustiada, com medo, não consegui comer nem dormir, resolvi pintar a minha casa com a cor preta, sempre lembrando daquela imagem tão terrível e nojenta. Como no meio de tanta gente honesta poderia ter um homem cruel, um psicopata, é assim que ele é. Ter que encontrar aquele homem novamente… Me senti horrível, mas não tinha condições de sair ou ir para outro lugar, a única e verdadeira que saía era a oração, cheguei a perguntar por que comigo?” (sic)

O assédio sexual é uma das grandes aflições que atingem mulheres de todas idades, classes, culturas e etnias, tirando suas liberdades. As pessoas reagem de forma diferente a situações de violência, e uma parcela delas desenvolve estresse pós-traumático.

Durante o ato, para alguns, a situação pode parecer irreal, tudo como um sonho ou pesadelo, e a pessoa se sentindo anestesiada diante da situação. Para outras pessoas, a vivência pode ser de intenso desespero e dor. A vivência do tempo também pode ficar bastante alterada e, o que durou apenas alguns segundos, pode parecer longo tempo, as coisas podem parecer em câmera lenta, tudo ficando muito vívido na percepção, em alguns casos se mantendo num estado anestesia emocional e sentindo-se distantes da situação, diminuindo sua responsividade ao  mundo.

Algumas pessoas desenvolvem um estado mais depressivo, com perda de interesses, desânimo, embotamento emocional ou estreitamento de horizontes na vida.

A terapia permite  restaurar a capacidade de lidar com fortes emoções internas, o que pode ter ficado comprometido. Este processo precisa ocorrer num contexto vincular de cuidado e confiança onde, através da terapia, a pessoa possa voltar a viver o seu presente, e não mais ficar paralisada diante deste trauma.

Marta Batista

Psicóloga Clinica/Hospitalar Especialista em Neuropsicologia. Trabalha na profissão há mais de dez anos. Ministrou aulas em uma instituição de Ensino. Atualmente trabalha em dois hospitais e tem um consultório em Recife- PE , onde realiza atendimento aos sábados. Contato: martabsn4.1@gmail.com

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