Dicas de Filmes

Esse filme da Netflix dura só 95 minutos, mas a sensação de angústia fica muito depois dos créditos

Tem filme de “crime real” que vira quebra-cabeça, com pistas espalhadas e reviravoltas pensadas pra você maratonar feliz. Lost Girls: Os Crimes de Long Island vai na direção oposta: ele pega a parte mais desconfortável dessas histórias — a espera, o descaso, as portas que não se abrem — e transforma isso no motor do suspense.

O resultado é um longa de 95 minutos que dá a sensação de estar preso num corredor de delegacia que nunca termina.

O filme (Netflix, 2020) é dirigido por Liz Garbus e adapta o livro-reportagem Lost Girls: An Unsolved American Mystery, de Robert Kolker.

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A trama acompanha Mari Gilbert (Amy Ryan), uma mãe que tenta encontrar a filha desaparecida, Shannan. A partir daí, o que deveria ser um caso tratado com urgência vira uma sequência de empurrões, burocracias e silêncios — até que a busca acaba esbarrando em outras vítimas e em um padrão que ninguém parecia com pressa de encarar.

O jeito como Lost Girls constrói tensão é quase cruel: ele raramente oferece “alívio” de roteiro.

Em vez de apostar em cenas feitas para chocar, o filme insiste na repetição de telefonemas, atendimentos frios, justificativas esfarrapadas e naquele desgaste mental que só cresce quando quem deveria agir trata a dor como ruído.

Isso dá ao tempo uma textura estranha: não acontece “pouco”; acontece o suficiente para você sentir o peso da negligência minuto a minuto.

Amy Ryan carrega o filme com uma atuação sem enfeite: Mari não é escrita como heroína perfeita nem como figura idealizada de sofrimento. Ela é insistente, exausta, às vezes dura, às vezes desorientada — e esse vai e vem deixa tudo mais real.

O elenco de apoio também ajuda a compor o quadro: Gabriel Byrne e Thomasin McKenzie aparecem em papéis importantes, mas o centro emocional continua sendo a fricção entre uma família desesperada e instituições que se movem no ritmo delas mesmas.

Outra escolha que incomoda (no melhor sentido) é o foco. O filme não se empolga com “mistério de serial killer” como espetáculo.

Ele coloca luz em como certos desaparecimentos recebem menos atenção, como algumas vítimas são tratadas com menos respeito e como isso distorce prioridades — especialmente quando há estigma envolvendo trabalho sexual e classe social.

É aí que Lost Girls aperta: você percebe que o terror não está numa cena específica, mas na normalização do abandono.

Vale contextualizar: a história do filme se relaciona ao caso conhecido como os assassinatos de Gilgo Beach/Long Island, em que restos mortais de várias pessoas foram encontrados ao longo de anos em Long Island.

O longa foi lançado bem antes das acusações mais recentes ganharem tração pública; ainda assim, ele funciona como retrato de um período em que famílias tentavam ser ouvidas enquanto o caso se arrastava.

No fim, Lost Girls é daqueles filmes que você termina com a sensação de que o ar ficou mais pesado — porque ele não te distrai com truques: ele te prende na espera e te obriga a olhar para o que costuma ficar fora de cena.

Leia tambémA série da Netflix que desmonta defesas emocionais uma cena de cada vez (e você vai adorar cada episódio!)

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Gabriel Pietro

Redator com mais de uma década de experiência.

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