Marcel Camargo

Não perca a capacidade de se encantar

O amadurecimento nos traz muita coisa boa, pois é somente com o passar do tempo que conseguimos entender muito daquilo que nos agoniava quando jovens. Passamos a aceitar que o tempo da vida não é o mesmo da gente e que nem tudo – ou quase nada – ocorre exatamente como desejamos. Infelizmente, o amadurecimento torna muitas pessoas céticas demais, descrentes e incapazes de colorir o mundo lá fora, mesmo que de maneira boba.

Quando crianças, temos a capacidade de acreditar nas coisas e nas pessoas, de imaginar o melhor em tudo o que existe, porque tudo é tão novo, tão real. Crianças precisam tocar, sentir, ver e ouvir, encantando-se com cada nova descoberta, com cada nova amizade, com cada viagem, cada pedacinho de jardim. E então a gente vai crescendo e nada mais parece ter aquele viço, como se já conhecêssemos tudo e nada pudéssemos esperar de ninguém.

Talvez seja este o maior problema que existe no mundo de hoje: a incapacidade de se encantar. A vida adulta nos cobra tempo demais, apaga as ilusões, colocando-nos frente a frente com a dor da decepção, a dor das perdas, a dor da morte. A finitude do mundo lá fora acaba por nos invadir os sentidos, tornando-nos frios e sérios. Afinal, é feio adulto rir à toa; parece bobo quem é otimista demais; quanta imaturidade em se divertir com pouco.

Na verdade, confundir amadurecimento com carranca é um desserviço à saúde mental de qualquer pessoa, porque nada mais ensurdecedor aos sentimentos do que o mau humor, o pessimismo, a cara e o coração fechados. É preciso se encantar com o que há lá fora a ser vivido, experimentado, sentido. É preciso manter aqui dentro os sonhos de uma vida melhor, junto a gente do bem. É preciso acreditar no amor verdadeiro, em gente de verdade.

Perdemos tanto tempo atrás do que está exposto nas vitrines e nos apelos midiáticos, que acabamos nos esquecendo de olhar tudo o que existe ao nosso redor e pode ser desfrutado de graça, como um sorriso sincero, um bom dia com gosto de amor, um amigo que nos pergunta se estamos bem. Não, jamais poderemos nos permitir perder a capacidade de nos encantar. Afinal, é assim que a gente se eterniza.

Imagem de capa: Sergii Kovalov, Shutterstock

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".

Recent Posts

‘Ela é de quem?’: pai negro expõe os comentários cruéis que ouve por ter filha albina

Pai negro revela o que escuta nas ruas por ter uma filha albina — e…

2 dias ago

Um psicólogo best-seller alerta: essa crença comum pode estar sabotando sua felicidade

Essa ideia sobre felicidade parece inofensiva — mas é a maior armadilha, segundo psicólogo best-seller

3 dias ago

O roteiro dessa série brinca com sua atenção de um jeito que quase ninguém percebe

Essa série te faz prestar atenção em tudo — menos no detalhe que realmente muda…

3 dias ago

Você pode até não notar, mas essas 5 coisas definem como as mulheres te enxergam

Mulheres não falam, mas reparam nessas 5 coisas logo no primeiro contato

4 dias ago

O cérebro humano evoluiu rápido demais — e o autismo pode ser parte do preço pago

E se o autismo for consequência direta da evolução da inteligência humana?

5 dias ago