Na atualidade das discussões sobre o autismo, essa pergunta foi muito bem enunciada por Éric Laurent, um dos seguidores dos ensinos de Jacques Lacan, em sua conferência no Rio de Janeiro, sobre “O que nos ensinam os autistas?”.

Diante desse e de outros questionamentos acerca do autismo no campo psicanalítico, uma questão se coloca: é importante pararmos para pensar o que preocupa as crianças autistas? Ou somos aqueles que queremos fazer dos autistas seres portadores de um déficit a ser educado e somente isso? Ou fazer dessas crianças um objeto alienado do mundo, sem chance de ser tomado como um sujeito?

A reboque de terapias cada vez mais “milagrosas”, “gritando cura”, com a promessa de “a criança normal ou seu dinheiro de volta! “, abordagens comprometidas com a valorização de um sujeito no autista, veem se cada vez mais sendo repudiadas e tachadas de “culpabilizantes” e “sem resultado”.

Ora, abro aqui um parêntese para tratar de minha experiência, que não é vasta, mas é válida. Seguindo essa via, encontrei na Psicanálise um incrível respeito à criança e adulto autista. Através do enfoque psicanalítico consegui encontrar uma forma de trabalho com esses sujeitos, respeitando seu tempo, sua lógica, seu modo de operar, suas estereotipias e “esquisitices” e finalmente consegui responder uma questão que muito me angustiava no atendimento ao autista: Afinal, para QUEM é o tratamento?

Quando um autista chega ao consultório, o tratamento é dele! Vou atende-lo, respeitando o que já foi dito anteriormente. É a ele que vou atender. É preciso articular que o trabalho feito com a criança não será do jeito “que o pai pediu”, ou “que a escola disse que se ele se esforçar nesse item, consegue tal resultado”, ou “que tratamento novo o fará sair de sua bolha”.  O tratamento é para o sujeito. Há um sujeito no autismo. Com vontades, desejos, preocupações, medos.

Para tentar explanar uma leitura além da teoria e da minha escolha e experiência de abordagem, é na fala dos autistas que podemos apreender de fato o que os preocupa. É dando voz a esses sujeitos que conseguimos alcançar um pouco do seu mundo tão particular.

Ao escutar a criança em sua individualidade, abre-se um espaço para que ela, de fato, possa dizer de si mesma. Sob esse aspecto a criança é colocada na posição de falante, reconhecida como sujeito capaz de assumir um discurso próprio e particular (ainda que não fale!) demonstrando qual é a sua inscrição subjetiva e o seu modo de funcionar.

Fernanda Marchi

Psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Exerce a atividade clínica tendo sob orientação a abordagem psicanalítica, nas cidades de Nova Venécia e Vitória no Espírito Santo. Atua no atendimento à adolescentes e adultos, mas é no contato com o atendimento infantil, principalmente voltado ao autismo, que dedica seu trabalho clínico. Atualmente é membro da Escola Brasileira de Psicanálise em Vitória e cursa Especialização em Avaliação Psicológica pelo Instituto de Pós Graduação Ipog.

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