Tem filme que sai do cinema com duas torcidas: a que aplaude a coragem e a que reclama do “excesso”. Em 2010, Martin Scorsese entrou exatamente nesse território com Ilha do Medo.
A crítica ficou morna em parte da época, mas o público comprou a ideia com força: foram cerca de US$ 299 milhões no mundo, número que passou a bilheteria de Os Infiltrados e colocou o longa entre os maiores sucessos comerciais do diretor.
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A história veio do romance de Dennis Lehane (lançado em 2003), escrito com vontade clara de brincar com o clima gótico e com a sensação de que você não pode confiar totalmente em quem narra o que está acontecendo.
Lehane situou tudo em 1954, em plena paranoia do macartismo, e bebeu em referências do cinema de suspense e conspiração da metade do século 20 — daqueles filmes que deixam o espectador desconfortável por notar que “tem algo errado” o tempo inteiro.
O roteiro circulou rápido em Hollywood e chegou a Scorsese num momento em que ele tinha outros projetos engatilhados, mas ainda sem sinal verde.
Ele contou, durante a divulgação do filme, que começou a leitura tarde da noite e teve dificuldade real de largar o material. A engrenagem do texto — principalmente o desfecho, com mudanças em relação ao livro — foi o que fez o diretor apostar no projeto.
Na tela, quem conduz o caso é Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), um agente federal enviado a um hospital psiquiátrico isolado após o desaparecimento de uma paciente.
A investigação vira um labirinto de pistas, contradições e memórias que aparecem do nada, enquanto o local e seus funcionários parecem sempre um passo à frente.
Scorsese tratou o final como peça central do filme, e foi aí que muita gente se dividiu: tem quem ache brilhante e tem quem considere calculado demais.
DiCaprio levou o papel como se estivesse construindo o personagem por dentro, e isso chamou atenção até do próprio Lehane, que brincou que o ator fazia perguntas sobre Teddy que nem o autor sabia responder.
Do lado do ator, a ideia era “tomar posse” do protagonista, deixando menos espaço para uma leitura única e mais espaço para ambiguidade — o tipo de escolha que, por tabela, aumenta a discussão depois que sobem os créditos.
Financeiramente, deu muito certo. Com orçamento estimado em US$ 80 milhões, Ilha do Medo estreou em fevereiro de 2010 e abriu com cerca de US$ 41 milhões no primeiro fim de semana nos EUA, terminando a carreira internacional perto dos US$ 299,4 milhões.
E, mesmo sem virar queridinho de temporada de prêmios e com recepção crítica só “ok” (ficou na casa dos 69% no Rotten Tomatoes), o longa ganhou fôlego com o tempo — hoje aparece com frequência nas listas de filmes mais lembrados do diretor, justamente por ser um suspense que não tenta agradar todo mundo.
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