Quem jura que “homem só tem fogo de verdade quando é novo” talvez esteja olhando a história pelo ângulo errado.
Um estudo grande, publicado na Scientific Reports (grupo Nature), encontrou um padrão bem diferente: a libido masculina tende a ficar mais alta do fim dos 30 até o começo dos 40 anos — e não no auge da juventude.
O dado chamou atenção porque contraria o roteiro biológico mais óbvio. A testosterona costuma começar a cair gradualmente a partir dos 30, mas o desejo sexual não desaba junto.
Para os autores, isso indica que, no caso dos homens, o desejo parece responder fortemente a elementos como estado emocional, rotina mental, qualidade do vínculo e clima do relacionamento, além de expectativas sociais.
Os pesquisadores citam um “pacote” de influências: questões psicológicas (como depressão, ansiedade e a frequência de pensamentos eróticos), fatores do casal (comunicação, conexão emocional e sentir-se desejado) e também regras sociais não escritas que pressionam homens a demonstrar desejo elevado.
A psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do Hospital das Clínicas (não envolvida na pesquisa), concorda que hormônio importa — mas não fecha a conta sozinho. “Sem testosterona, o homem não tem desejo, então ela é pré-requisito”, explica.
Depois que a saúde física está em dia, entra a pergunta incômoda: por que dois homens saudáveis podem ter desejos tão diferentes?
Na leitura da especialista, o desejo mais forte perto dos 40 pode ter a ver com maturidade sexual e com a vida real do relacionamento. O começo da vida adulta, para muita gente, inclui iniciações apressadas, inseguranças e experiências frustrantes.
Já mais tarde, com mais intimidade, repertório e melhor entendimento do próprio corpo e do que funciona a dois, cresce a chance de satisfação — e satisfação costuma alimentar vontade. Nas palavras dela, entram em jogo experiência, confiança com a parceria e o tempo necessário para que o casal “ajuste as arestas”.
O trabalho analisou dados do Biobanco Estoniano: mais de 67 mil adultos, entre 20 e 84 anos. A pesquisa foi conduzida por equipes da Universidade de Tartu (Estônia) e da Universidade de Edimburgo (Reino Unido).
A amostra tinha cerca de 70% de mulheres e 30% de homens. O estudo avaliou como variáveis demográficas e de relacionamento se conectam ao desejo sexual.
No conjunto, idade e gênero aparecem como os fatores com maior peso, mas outros pontos também mexem no resultado: orientação sexual, satisfação no relacionamento, ocupação profissional e parentalidade.
Mesmo assim, os autores enfatizam que esse grupo de variáveis explica menos de um terço da variação do desejo.
O restante fica por conta de coisas que o estudo não mediu diretamente — traços de personalidade, saúde mental, histórico de vida, experiências marcantes e particularidades individuais.
Entre mulheres, o desenho é outro: o pico médio surge antes, entre 20 e 30 anos, e a oscilação tende a ser maior ao longo da vida.
O declínio aparece para todos com o passar dos anos, mas nas mulheres ele costuma ser mais forte, especialmente após os 50, período em que a menopausa muda o cenário hormonal.
Carmita aponta que o ciclo menstrual também ajuda a explicar por que o desejo feminino pode variar mais: a lubrificação e o conforto sexual dependem de hormônios que flutuam durante o mês.
Só que relacionamento pesa (e muito). Carmita resume de forma direta: uma mulher presa por anos a uma relação ruim pode perder totalmente o interesse por sexo — e, ao sair daquele contexto, pode retomar o desejo até mesmo depois da menopausa. A mensagem é clara: qualidade do vínculo e bem-estar emocional bagunçam qualquer explicação simplista.
Outro achado marcante: em quase todas as idades, homens relatam desejo sexual bem mais alto do que mulheres — e essa diferença não encolhe com o envelhecimento; tende a aumentar.
A aproximação mais visível acontece só depois dos 60, quando a libido masculina cai com mais força: aí, os níveis dos homens se aproximam dos picos médios relatados pelas mulheres na faixa dos 20 a 30.
Parte disso tem base biológica (testosterona mais alta nos homens), mas os autores também apontam para o efeito de normas culturais: homens, em geral, são incentivados a se ver como “agentes sexuais”, o que se conecta a mais pensamentos eróticos e a comportamentos que sustentam o desejo em patamares elevados.
Para as mulheres, o mesmo ambiente social pode atuar no sentido oposto, julgando e reprimindo. Carmita compara: quando ela tem muita libido, muita gente desconfia; quando ele tem muita libido, tende a ser validado.
A pesquisa ainda encontrou relações com trabalho e renda de forma bem menos “reta” do que parece. Insegurança no emprego aparece como um freio relevante para homens e mulheres.
Profissões de alta pressão podem reduzir o desejo, sobretudo nelas, quando a balança entre trabalho, casa e vida afetiva vira um cabo de guerra. Em categorias agregadas, gerentes, militares profissionais e operadores de máquinas relataram desejo mais alto; trabalhadores de escritório e ocupações elementares, mais baixo.
Mas os autores alertam para confusões possíveis: idade média e composição de gênero de cada profissão podem distorcer comparações.
E o ponto que mais rende conversa: filhos. Para mulheres, o padrão segue o que muita gente já observa no cotidiano: maternidade frequentemente vem acompanhada de sobrecarga de cuidado, estresse, sono picado e mudanças físicas, o que reduz espaço mental e corporal para a sexualidade.
Já para homens, aconteceu o oposto na média do estudo: ter mais filhos apareceu associado a maior desejo.
A explicação provável levantada pelos autores é um “reforço de papel social” ou aumento do vínculo familiar — mas eles também consideram a possibilidade inversa: homens com libido mais alta podem ter mais filhos.
Por fim, orientação sexual e satisfação no relacionamento também entram na conta. Participantes bissexuais e pansexuais relataram níveis médios mais altos de desejo; heterossexuais ficaram perto da média; assexuais, abaixo.
E, quando o assunto é casal, aparece um detalhe interessante: para elas, estar bem na relação costuma vir antes de estar bem sexualmente; para eles, a satisfação sexual tende a puxar a satisfação com o relacionamento.
Para ambos, comunicação honesta e conexão emocional aumentam a chance de o desejo se manter. Em relações longas, a acomodação e o acúmulo de atritos podem derrubar a vontade — e Carmita lembra que mágoas e frustrações que não são trabalhadas acabam cobrando o preço com o tempo.
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