SAÚDE MENTAL

A academia e seus comportamentos patológicos

Por Thomaz Wood Jr

A onda teve início um século atrás nas empresas e chega agora às universidades. Tudo começou com Frederick Winslow Taylor, o mestre dos tempos e movimentos. O engenheiro norte-americano deixou para a posteridade o livro Princípios de Administração Científica, no qual mostrava como aplicar diretrizes de racionalização do trabalho às linhas de montagem.

Suas técnicas atraíram fãs no Ocidente e muito além. Na base do método, a noção de que há sempre uma melhor forma de realizar o trabalho, e esta poderia ser identificada, reproduzida, medida e controlada em prol da produtividade.

A obsessão produtivista e a sanha controladora invadem, nos dias atuais, a academia e seus complexos processos de geração de conhecimento. O que era bom para aferir a produção de caixas de câmbio e motores parece adequado também ao caso dos artigos científicos. Consideradas, com alguma justiça, lerdas e incapazes de atender às demandas sociais, as universidades tornaram-se alvo de burocratas interessados em mostrar serviço. Seu instrumento de preferência são os sistemas de avaliação de desempenho acadêmico, amparados em indicadores supostamente capazes de traduzir a complexa teia de atividades de ensino e pesquisa em números.

Alguns acadêmicos respondem às pressões com estoicismo. Outros resistem e defendem sua zona de conforto. Lamentavelmente, a academia gera também comportamentos de burla, uma patologia que deve ganhar escala de pandemia e contaminar todo o corpo científico. Tais comportamentos, frequentemente chamados de gaming, são variados.

Diante da pressão pelo aumento de publicações, alguns pesquisadores recorrem a periódicos predadores, nos quais se paga para publicar, e àqueles ditos inclusivos, com dezenas de artigos escolhidos em processos frouxos de seleção.

Outros dividem suas pesquisas em blocos de resultados com o objetivo de multiplicar o número de publicações, comportamento conhecido como “ciência salame”. Há ainda quem pegue carona com colegas e orientandos e coassine, sem constrangimento, artigos para os quais pouco contribuiu.

Tais condutas, antes isoladas, são cada vez mais comuns. Conforme se espalham, constituem um padrão, um “novo normal”.

Novas gerações de pesquisadores, mestrandos e doutorandos são socializadas segundo os costumes descritos e dão mais importância a publicações e suas recompensas, sejam simbólicas, sejam pecuniárias, e menos atenção ao conhecimento gerado e sua aplicação em benefício da sociedade. Perdem os abnegados e altruístas, que deveriam modelar a cultura acadêmica. Ganham os burocratas e mercantilistas, encaminhadores da ciência para mares desconhecidos.

Em um texto recente sobre os caminhos e descaminhos da ciência, Marc A. Edwards e Roy Siddhartha, engenheiros ambientais da Virginia Tech, nos Estados Unidos, argumentam que nos últimos 50 anos a hipercompetição por recursos e os incentivos para cientistas se tornaram perversos. Segundo os autores, isso reflete a adoção de um modelo empresarial e pode levar a comportamentos não éticos.

O risco, caso uma massa relevante de cientistas passe a jogar o novo jogo, é a ciência se converter em um campo intrinsecamente corrupto e a comunidade acadêmica perder a confiança do público. As consequências, observam Edwards e Siddhartha, seriam devastadoras para a ciência e a sociedade. O que fazer? Primeiro, é preciso reconhecer a existência do problema. Segundo, admitir que a ciência é hoje um sistema complexo e demanda um processo de alocação racional de recursos com o objetivo de alcançar o máximo benefício social.

Por causa disso, requer algum tipo de avaliação. Terceiro, deve-se construir sistemas de avaliação a partir da realidade de cada unidade de ensino e pesquisa e reconhecer as peculiaridades do seu campo de conhecimento. Aquilo considerado perfeitamente racional para uma escola de farmácia pode ser aberração para uma faculdade de economia.

Tais sistemas devem considerar a realidade local, as competências e aspirações da unidade e as demandas sociais às quais precisam responder. O sistema de avaliação deve derivar dessa orientação. Finalmente, as instituições científicas têm de monitorar comportamentos desviantes e corrigir suas políticas e sistemas de incentivo. Comportamentos incompatíveis com o ideal da ciência como prática a serviço do bem social precisam ser desencorajados.

Imagem de capa: Shutterstock/PhotoMediaGroup

TEXTO ORIGINAL DE CARTA CAPITAL

Psicologias do Brasil

Informações e dicas sobre Psicologia nos seus vários campos de atuação.

Recent Posts

Quando tudo desaba: existe atendimento imediato para te amparar

Se você precisa de ajuda hoje, há atendimento psicológico imediato pronto para acolher seu momento.…

2 dias ago

Médico alerta: exame de sangue simples prevê infarto em qualquer pessoa — e quase ninguém sabe disso

Médico orienta: faça este exame de sangue simples que prevê infarto em qualquer pessoa antes…

4 dias ago

O que acontece com seus genes após 28 dias sem certos cosméticos e itens de beleza chocou até os pesquisadores

Estudo bombástico: suspender alguns itens de beleza por 28 dias mexe em genes ligados ao…

4 dias ago

Novo teste de ‘coco’ promete aposentar a colonoscopia e acerta 90% dos casos de câncer — médicos estão surpresos

Um exame simples e sem dor está detectando câncer de cólon com 90% de precisão…

4 dias ago

Homens gays podem virar padres? Vaticano agora diz que sim — mas só se aceitarem uma regra nada simples

Vaticano libera entrada de homens gays no sacerdócio… mas impõe uma condição que surpreendeu muita…

5 dias ago

Casamento tem 6 fases — e a maioria desiste na fase 3, justamente quando isto começa a aparecer

Casamento passa por 6 fases, mas quase todos desistem na fase 3: é ali que…

6 dias ago