Apesar se ser uma menina relativamente confiante, passei a maior parte da adolescência com medo de ser gorda. Engordar, sentir-se gorda, ser gorda: Essa era a medida do valor que dava a mim mesma. Ser gorda era feio, vergonhoso, um tabu.
Como menina londrina, honestamente, eu não deveria ser gorda. Tinha de ser petite, macia, esbelta e bonita, adjetivos que não são associados a pessoas gordas. Foi só quanto minha terapeuta me recomendou o livro Fat is a Feminine Issue (a gordura é questão feminista, em tradução livre), de Susie Orbach, que realmente comecei a explorar a carga associada a essa palavra.
A retórica que acompanha o tema perpetua uma cultura destrutiva de regimes e incentiva transtornos alimentares, questões de imagem pessoal e auto-ódio, especialmente entre mulheres jovens. Percebi que gordo tem muito pouco a ver com tamanho.
Acredito que, num nível micro, a gordura é um estado do ser, ligado a emoções negativas. Em um nível macro, a gordura é crime. A sociedade não só nos enche de medo da substância como amaldiçoa quem a tem em excesso no corpo, ou nas partes erradas dele.
A verdade é que eu nunca fui realmente gorda, não fui obesa nem estive acima do peso. Tinha umas gordurinhas na pré-pubescência, mas meu tamanho nunca foi uma ameaça médica.
Mesmo assim, um medo obsessivo em relação ao tamanho me fez passar a maior parte dos meus anos de vida adulta fazendo regime, determinada a manter o controle sobre o tamanho e a composição do meu corpo. Me retraí socialmente e estava viciada em pensamentos sobre o que estava comendo, que efeitos aquilo teria no meu corpo.
Graças à terapia, comecei a questionar esses comportamentos aparentemente irracionais. Por que eu era tão autodestrutiva? Por que lutava contra meu corpo? Por que exigia tanto de mim mesma? Por que tinha ficado obcecada com meu peso? Por que tanto medo de ser gorda?
Comecei a fazer terapia ao mesmo tempo em que comecei a estudar antropologia social. Três anos depois, tinha algumas respostas, tirando conclusões baseadas em psicanálise, teoria política e economia.
Era simplesmente uma questão de controle, me disseram. Minhas experiências de vida pareciam incertas e bagunçadas, eu estava fora de controle, desesperada para encontrar alguma ordem no caos.
Meu terapeuta e eu começamos pela minha infância. Falamos da vida em família, da minha relação com comida, com meu corpo e com meus pais. Na universidade, estava estudando capitalismo, a produtividade do corpo, as distinções entre sexo e gênero.
Desconstruindo as relações pessoais e culturais com a gordura, percebi que era uma expressão do “eu” cuja experiência é parecida com a da moeda. Perder e ganhar peso determinam o valor que você dá a si mesmo. O rigor do regime e do detox decidem nosso status social.
A gordura é política, às vezes poderosa a ponto de nos governar. Embora tenha dado duro para superar minhas questões de alimentação e imagem corporal, acredito que meu medo vai continuar existindo enquanto a sociedade tiver medo de gordura.
Não conheço nem uma única menina que não se preocupe com seu corpo, que em algum momento não tenha sentido a necessidade de fazer regime ou não tenha usado “gordura” como algo negativo.
Faz sentido, porque numa cultura tão alérgica à insalubridade e aos tamanhos grandes, ninguém quer ser a menina gorda. Mas me incomoda que aquelas que sofrem o fazem de forma privada. Como toda doença mental, a vergonha tem papel fundamental em estabelecer a autoimagem negativa e os comportamentos destrutivos dos transtornos alimentares.
Para tentar desconstruir os mitos em nossa relação com a gordura, os regimes e nossos corpos, estou lançando uma plataforma online com o objetivo de criar um lugar seguro para que falemos de forma aberta e sincera sobre nossas ansiedades.
O Fat Girl acolhe todos os tipos de corpo, todos os tamanhos e todas as cores, na esperança de compartilhar nossas experiências mais vulneráveis e nos empoderar para que sejamos donas de nossos próprios corpos.
Imagem de capa: Shutterstock/George Rudy
TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST
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