Marcel Camargo

É assustador como tem gente que muda na frente dos outros

Vivemos junto a várias pessoas e cada uma delas pensa de um jeito diferente, sente o mundo de uma forma peculiar e possui opiniões muitas vezes dissonantes entre si. Isso nos obriga a tentar nos adequar aos ambientes que frequentamos, para que não entremos em choque o tempo todo, com as pessoas. Porém, isso não quer dizer que somos obrigados a forjar várias personalidades, para atender a todo mundo.

Hoje, em tempos de ódios partidários exaltados e de embates sobre tudo nas redes sociais, é preciso se resguardar, evitando entrar em discussões sem serventia, as quais apenas expõem pessoas que nunca irão chegar a um denominador comum. Nem sempre conseguiremos manter a calma, mas ignorar certas pessoas nos salva. Não adianta tentar um diálogo minimamente coerente com quem só sabe monologar em volta do próprio umbigo.

No entanto, evitar discussões inúteis não significa, de jeito nenhum, vestir máscaras teatrais para ser aceito pelos outros. Tem gente que possui uma máscara para cada ambiente onde estiver, encenando uma personagem para cada tipo de pessoa que encontra pela frente. Na frente de gente rica, faz a dondoca. No meio de gente simples, posa de humilde. Esse tipo de pessoa transita confortavelmente por todos os lugares, pois encarna uma personagem perfeita em cada um deles. Isso assusta.

Assusta, porque, quando presenciamos alguém mudando o comportamento na frente de outras pessoas, acabamos ficando em dúvida sobre quem ele é realmente. Se a pessoa muda com o outro, ela também muda conosco, ou seja, qual, afinal, é sua verdadeira personalidade? Como confiar em pessoas que se transformam, como num passe de mágica, ao encontrarem fulano ou sicrano? Infelizmente, trata-se de alguém que fatalmente está se perdendo de si, distanciando-se das próprias verdades. Trata-se de alguém em quem não conseguimos confiar.

É lógico que não dá para ficar sendo inconveniente, tentando discutir em todo lugar aonde se vá. Sabedoria é selecionar as batalhas que são dignas de adentrar, ou se perdem todas elas. É possível continuar sendo quem somos onde estivermos, ainda que precisemos ser discretos, mas mantendo a nossa essência em todos os nossos passos. Caso comecemos a encenar e a dançar sempre conforme a música, mesmo aquela que nos desgoste, então nos enfraqueceremos. Então perderemos nossa dignidade, nossa personalidade, nossa essência. Ser alguém em quem ninguém confia deve ser muito triste. Não seja essa pessoa.

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Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".

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