Justiça com as próprias mãos: quando um crime toma vestes heroicas

Não é de hoje que o ser humano possui em si um senso de justiça um tanto contraditório. Basta voltar um pouco na história e analisar as questões provenientes do nazismo, fascismo e ditadura militar, onde a violência física e psicológica, bem como casos mais severos como torturas e assassinatos em massa eram concebidos como atos benéficos à sociedade vigente. Para eliminar a “ameaça”, eliminavam-se pessoas.

Contudo os tempos são outros e seria natural que a conjuntura ideológica também fosse, mas não é bem assim. Casos de linchamento configuram um cenário pseudo-heroico no qual a sociedade civil aniquila a si mesmo a fim de proteger-se. Entretanto, se me revolta o crime, por que cometê-lo? Seria, então, a justiça pela justiça capaz de justificar assassinatos? Não estaríamos, dessa maneira, nos igualando aos sujeitos os quais taxamos de criminosos e inescrupulosos? Produzimos de fato justiça ou ainda mais injustiça com tais atos de crueldade coletiva?

Penso que a descrença nos instrumentos de proteção social, como a polícia e a própria justiça no que tange às leis e seu cumprimento, seja o maior fator para que ainda hoje haja casos de linchamento. Pensemos bem, se confio nas leis, por que recorrer à barbárie de sujar minhas mãos e pés de sangue? Aproximar-se daquilo que por vezes nos provoca repulsa, igualar-se nem que seja por um instante àquilo que considero errado para promover “justiça” não nos faz menos repugnantes, não nos torna certos. Não nos transforma em bem-feitores.

Outro fator importante é a força e sentimento de corresponsabilidade que sugere um grupo. Talvez, se sozinho, um único sujeito não se sentiria movido a fazer “justiça” com as próprias mãos, pois a culpa encontraria facilmente endereço para habitar após o ato. Em contrapartida, quando em grupo, um alimenta no outro o desejo de justiça. O fato de não saber quem desferiu o golpe mortal deixa a culpa perdida e sem destino, todos saem de consciência limpa, como se por suas mentes pairasse uma nuvem que não apenas encobre o remorso como faz chover um sentimento de bem-feitoria, missão cumprida. É lastimável.

O fazem, pois devem pensar – “se cometeu um crime e não seria punido, também não serei por puni-lo.” Retomando o descrédito e descrença nos instrumentos de proteção social.

Se faz necessário, dessa maneira, refletirmos sobre como temos nos constituído como cidadãos, bem como a forma pela qual estabelecemos relações de grupo. Se estamos a promover práticas humanas e libertárias coerentes com nossos discursos ou se agirmos como “selvagens alienados” cujos atos desumanos profanam e apenas profanam discursos vazios.

Carlos Santos

21 anos, artísta plástico e ilustrador, estudante de bacharelado pleno em psicologia pela Faculdade Guararapes, Rede Laureate International Universities. Ativista do CAPE - Coletivo Antiproibicionsta de PE, dedica-se à trabalhos de cunho social como por exemplo, debate sobre a criação de uma nova política de drogas, Ações de Redução de danos, bem como questões sobre minorias politicas (movimento feminista, LGBTT, entre outros).

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