Marcel Camargo

Não deixe o amor ficar preso ao que poderia ter sido

O que foi já era. O que passou é passado. O que se fez feito está; o que não foi feito não está lá. Palavras ditas já tiveram seu alcance; palavras engolidas já se perderam. Nada permanece igual, nem ninguém. A vida é como as águas de um rio, em eterno movimento, nunca igual: às vezes mansidão; outras vezes, tempestade. Lamentar é inútil, aprender com o que houve é o que nos salva.

Poderíamos ter feito uma faculdade diferente, poderíamos ter dado aquele beijo, ter viajado daquela vez, ter calado tantas e tantas vezes. Mas agora já foi, porque fizemos o que nos fora possível à época; agimos conforme o que tínhamos para dar, de acordo com o que então sentíamos. Hoje, somos outras pessoas, melhores e mais sábias, exatamente em razão de todas as derrapadas que acumulamos pelo caminho e que nos moldaram o caráter.

Desistir de tentar algo novo, por conta de tudo o que não deu certo até agora, significa não aprender nada com a vida, que tenta nos ensinar diariamente, sob chuva ou sob sol. A gente vai quebrar a cara, vai passar aperto, vai se decepcionar; a gente vai perder e perder. E isso é sinal de que estamos vivos, de que não ficamos parados, estagnados na mesmice cômoda de uma vidinha sem graça.

É assim com tudo, é assim com o amor. O medo de se entregar a alguém, por conta dos traumas acumulados, das pessoas erradas, da confiança repetidamente quebrada, paralisa e cega. Temer recomeçar, na vida e no amor, prende-nos a tudo o que foi falho, impedindo-nos de abraçar novas chances que se estendem diariamente à nossa frente. Como dizem, sempre haverá novas pessoas, novos momentos, novos lugares, novos sentimentos.

Nem todo mundo irá nos decepcionar. Nem todas as pessoas irão usar o nosso melhor da pior maneira. Nem todas as horas serão ruins. Nem todas as noites serão intermináveis. Existe, sim, amor de verdade por aí. Guardar no coração gente de luz e momentos felizes nos sustentará toda vez que a vida não der certo, porque então teremos dentro de nós as razões certas para prosseguir e recomeçar. Ainda bem.

*O título deste artigo é uma citação postada pela página “De repente dá certo”, no Facebook.

Imagem de capa: Andriys/shutterstock

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".

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