SAÚDE MENTAL

O que a tecnologia está fazendo com o seu sono?

Por Dr Cristiano Nabuco

Se você integra o grupo de 36,5% dos brasileiros que sofrem com a falta de sono, saiba então que isso representa nada menos do que 37 milhões de pessoas – apenas no Brasil -, e que, como você, passa por dificuldade no período noturno. Sim, alguns pontos já bem conhecidos auxiliam nossa entrada na indesejada estatística. Por exemplo, morar em algum local muito ruidoso, ter uma jornada diária de trabalho e de atividades domésticas muito longa, preocupações cotidianas e a depressão, obviamente, cada vez mais presente.

A maioria dos especialistas concorda que algumas faixas etárias são mais sensíveis à privação do sono e, como no caso dos adolescentes, por exemplo, seriam necessárias, aproximadamente, 9 horas de sono para que possam ser produtivos do ponto de vista acadêmico. O que talvez você já tenha, inclusive, percebido é que o uso do smartphone e tablets durante o período noturno contribui de maneira direta para o aumento desse problema.

Analisando dados de 360 mil jovens americanos, pesquisadores descobriram dados preocupantes a esse respeito. Veja só: cerca de 40% dos adolescentes em 2015 dormiram menos de 7 horas por noite, o que representa um aumento de 58% da diminuição do sono, se comparado à década anterior. (1)

Descobriu-se também que quanto maior foi o tempo de permanência on-line desses jovens, menor era a quantidade de sono registrada. Já aqueles que passaram 5 horas por dia conectados, eram 50% mais propensos a não dormir o suficiente. O que se descobriu foi que, mesmo sem estarem usando diretamente seus aparelhos, os comprimentos de onda de luz emitidos por smartphones e tablets podem interferir em nosso organismo ao alterar o ritmo natural do ciclo sono-vigília do corpo.

Outra pesquisa, por exemplo, demonstrou que a associação entre o envio de mensagens de texto durante a noite está ligada ao declínio da saúde mental dos jovens – como o aparecimento da depressão e a oscilação de humor -, além, obviamente, do declínio expressivo da autoestima e da capacidade de enfrentamento desses jovens. (2)

Talvez você ache um pouco de exagero de minha parte, mas não é o caso. Vamos lembrar que muitos, literalmente, passam a noite acordados e viram a noite enviando e recebendo mensagens. Assim sendo, ingenuidade nossa achar que tudo está sob controle, pois, de fato, a situação é bastante séria.

Crianças

Já os pequenos, com seu cérebro, padrões de sono e os olhos ainda em pleno desenvolvimento, são particularmente mais vulneráveis ​​aos efeitos de interrupção do sono, de acordo com uma revisão recentemente divulgada. (3)

Dos mais de 60 estudos realizados junto aos jovens na faixa etária que vai dos 5 aos 17 anos (em vários países), descobriu-se que 90 % relatam apresentar atraso do sono (ou seja, demora para adormecer), menos tempo dormindo e, finalmente, menor a qualidade do sono observada.

Como os olhos das crianças ainda não estão totalmente desenvolvidos, eles são mais sensíveis, se comparados aos dos adultos, ao impacto da luz no ritmo biológico de seu cérebro. Para se ter uma noção, os autores descobriram que, se comparados aos mais velhos, a mesma quantidade de exposição da luz azul nas crianças fez com que os níveis de melatonina caíssem duas vezes mais do que o registrado nos adultos.

Vamos lembrar que pesquisas mundiais indicam que mais de 75% dos jovens levam seu computador ou celular para o quarto e, o mais grave, 60 % interagem com seus equipamentos na hora anterior ao horário de dormir, e 45 % usam o telefone como alarme. Sem falar nas mensagens de texto que fazem com que o aparelho toque e vibre a noite toda, deixando o sono entrecortado, o que prejudica na consolidação da memória.

Entende-se que durante as fases do sono REM (movimento rápido dos olhos) e do sono de ondas lentas é que se daria a fixação do processo pelo qual a memória do cotidiano recente é alicerçada. (4) Portanto, quanto mais agitado estiver um jovem antes de dormir, mais enfraquecida será a consolidação do conhecimento recebido ao longo do dia (por exemplo, aquele recebido na escola). Portanto, a baixa performance acadêmica registrada, muitas vezes, nos jovens, não seria apenas decorrente de um processo pedagógico ruim, correto?

Obviamente que não.

Para finalizar, um outro relatório recente demonstrou que o uso de dispositivos como tablets e celulares triplicou entre crianças pequenas desde 2011, com crianças menores de 8 anos usando até 48 minutos por dia e muitos pais, lamentavelmente, incorporando mídia digital na rotina para que, pasmem, possam “induzir o sono” das crianças. (3)

Recomendações

Limite o uso de mídia infantil na hora anterior à hora de dormir.

Desligue todos os dispositivos de mídia eletrônica, incluindo o seu, na hora de dormir, e deixe-os em uma localização fora dos quartos. Lembre-se: os mais jovens copiam o comportamento dos mais velhos.

Remova, se possível, todos os meios eletrônicos do seu quarto e do quarto de seu filho, incluindo TVs, videogames, computadores, tablets e telefones celulares.

E, finalmente, converse sobre o assunto. Nada mais importante do que criar alguma consciência acerca de nosso comportamento.

A tecnologia, portanto, pode estar comprometendo o seu sono e o sono de seus filhos.

Imagem de capa: Shutterstock/Gap_Abstracture

Referências

(1) http://www.sleep-journal.com/article/S1389-9457(17)30350-7/pdf

(2) https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2017/may/30/teenagers-sleep-quality-and-mental-health-at-risk-over-late-night-mobile-phone-use

(3) http://pediatrics.aappublications.org/content/140/Supplement_2/S92

(4) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10461198

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