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Perdão é uma característica universal, mas nem todos sabem usá-la

Por Zulmira Furbino

É praticamente impossível viver sem experimentar a sensação de mágoa. Atire a primeira pedra quem nunca sentiu a dor de ser traído, desprezado ou injustiçado em família, no amor, com os amigos, no trabalho. A mágoa cotidiana, aquela que é alimentada mesmo sem querer, é um sentimento natural, típico da condição humana. Mas, ainda que seja comum, é preciso deixá-la ir. Afinal, se a ofensa é inevitável, o perdão é uma escolha. Na definição de Dalai Lama, líder da tradição budista tibetana, perdoar não é esquecer, mas aceitar que o que está feito está feito – e que o passado foge ao nosso controle.

“É preciso encontrar uma maneira de lidar com os fatos que carregam a mágoa e o ressentimento causado pelo erros alheios para encontrar paz mental e evitar impulsos destrutivos, como o desejo de vingança. O importante é reconhecer que o passado está além do nosso controle. E que o modo como reagimos aos atos errados passados, no entanto, não está”, alerta o líder espiritual do Tibete. Isso não significa que é preciso ser santo ou Buda para ser capaz de perdoar. De acordo com a psiquiatra Sofia Bauer, o perdão é uma característica universal, presente em todo ser humano, embora alguns tenham mais facilidade de perdoar do que outros.

“Quanto mais generosa e mais grata à vida é uma pessoa, mais fácil será perdoar”, sustenta a psiquiatra. O que chama a atenção, segundo ela, é que, de acorco com pesquisa realizada pelo psicólogo norte-americano Martin Seligman, o papa da psicologia positiva, com milhares de pessoas que se consideram felizes, só há uma coisa em comum entre elas: a sensação de dever cumprido e a de praticar o bem. “Isso implica em gratidão, em ver o outro com bons olhos, e isso tem muito a ver com a capacidade de perdoar”, sustenta. Para os que têm dificuldade em relevar as mancadas cotidianas dos relacionamentos, a dica é olhar para o outro como para si mesmo, percebendo que todos estamos sujeitos a erros.

“Alimentar mágoas é como carregar um saquinho de veneno pingando dentro do coração”, afirma a psicoterapeuta Vera Lúcia Junqueira. Ela reconhece, no entanto, que o exercício do perdão nem sempre é fácil. “O perdão faz bem para quem perdoa e para quem é perdoado. É preciso começar gradativamente, tentar encontrar coisas boas na pessoa que nos magoou, e o alívio chega aos poucos”, ensina. Vera afirma que costuma trabalhar com seus pacientes o desapego aos sentimentos negativos, tão comuns à natureza humana. “Percebo que as pessoas tendem a guardar demais os sentimentos negativos. Se elas se sentiram ludibriadas ou de alguma forma passadas para trás, tendem a querer se vingar, desejam que o outro sofra”, revela.

CRESCIMENTO
A terapeuta holística Patrícia Andrade explica que a palavra perdoar tem origem no latim e significa ser totalmente, entregar, doar, mas chama a atenção para o fato de que se fala muito mais do perdão ao outro do que do perdão a si mesmo. “Acredito que o perdão mais incrível seja quando a gente se perdoa, porque uma das últimas coisas que uma pessoa faz por si mesma é se perdoar”, observa. E não se trata de uma visão egoísta ou egocêntrica, mas de dar sentido ao ser, usando, para isso, a sua natureza mais original. “O ser humano só cresce e amadurece a partir de escolhas e passa a vida toda escolhendo. Por isso, quando uma pessoa comete um equívoco e se perdoa, isso significa crescimento”, diz. O importante, nesse caso, é reconhecer o erro, deixando a culpa para trás. Olhando pelo retrovisor com os olhos da maturidade, certamente não repetiríamos as escorregadas do passado.

Ainda de acordo com ela, uma das saídas para os que se sentem sempre ofendidos é não criar expectativas ou entregar a responsabilidade da própria felicidade para os outros. “Se, quando o seu filho não vai bem na escola, você pensa que o problema e a responsabilidade são da escola ou se acha que a culpa do que ocorre com você é sempre dos outros, está na hora de pensar qual é a sua responsabilidade nessas situações e assumi-la. Quem está mais consciente de si mesmo raramente precisa perdoar o outro, porque perdoa primeiro a si”, sustenta.

Resgate do equilíbrio
O atonement (at-one-ment), palavra que significa tornar inteiro novamente, está relacionado ao perdão e tem o objetivo de reparar as diversas situações da vida para resgatar o equilíbrio, não só de si mesmo, mas também da sociedade. Segundo Phil Cousineau, autor do livro Além do perdão – Reflexões sobre atonement (272 páginas, R$ 17), publicado em ePub pela Barany Editora, atonement vai além de simplesmente perdoar situações quando não se está satisfeito com alguém. “É o ato que corrige um erro, faz correções, repara os danos, propõe a restituição, procura fazer uma compensação, limpa a consciência do transgressor, alivia o ódio da vítima e faz justiça com um sacrifício correspondente ao dano que foi feito”, revela.

TEXTO ORIGINAL DE SITES UAI

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