Ao ouvirmos esta pergunta chocante, nossa primeira reação é responder: “Claro que não, afinal, eles têm boa alimentação, frequentam uma boa escola, andam com boas companhias, vivem com os pais (ou o pai ou a mãe), têm uma boa assistência médica…”

Mas será que o desamparo ocorre apenas quando essas condições básicas (e, sem dúvida, fundamentais) não estão contempladas?

Do ponto de vista psicológico, chamamos de desamparo uma condição existencial inevitável. Queremos dizer com isso que se trata de uma experiência emocional que a criança – ou mesmo o adulto – necessariamente atravessará inúmeras vezes ao longo da vida, constituindo, a partir dessas travessias, condições importantes para o amadurecimento e para a saúde do sujeito.

Bem, considerando que se trata de algo necessário para o crescimento, e já que todos vão passar por isso, por que eu, pai (ou mãe) deveria me preocupar?

Porque o desamparo, se repetido infinitamente, ou se não acompanhado por um adulto que possibilite que a experiência termine em um acolhimento, pode gerar consequências emocionais sérias, como a delinquência, a ansiedade e a depressão.

Já descrevemos em outro texto (http://www.psicologiasdobrasil.com.br/a-angustia-de-domingo-a-noite/) que o desamparo ocorre quando o sujeito (criança ou adulto) se vê arrancado de uma situação de proteção e conforto por algo que chega de forma imprevisível, incontrolável, que o coloca em um cenário aterrorizante de solidão, desproteção e isolamento. Usamos como modelo da situação o que ocorre com o bebê que chora por estar com fome, sem obter o cuidado – a presença – da mãe.

Pois bem, o que possibilita que essa experiência não se prolongue num eterno deserto de frustração e medo é o aparecimento da mãe, e o registro no psiquismo infantil de que ela acabou aparecendo. Posteriormente, com a capacidade de construção de narrativas, são as fantasias que permitem que a espera da mãe se torne suportável.

Ora, a capacidade da mãe (ou do pai, ou do cuidador) de terminar com o desamparo é o que chamaremos de disponibilidade para estar presente, oferecer efetivamente sua presença de forma que a criança se sinta acolhida.

Assim, é fácil perceber assim que podemos morar com nossos filhos sem oferecermos a nossa presença quando estão desamparados. Falta de diálogo, falta de interesse no que lhes acontece, encerramento do adulto em seu mundo de preocupações pessoais, refeições não compartilhadas, passeios que apenas prolongam a solidão em grupo que já está instalada em casa. Deste modo, configura-se o cenário no qual, apesar das necessidades básicas estarem satisfeitas, as crianças caminham solitárias, seguindo a jornada de uma existência desamparada.

Sugestões de temas, dúvidas sobre algum conceito de nossos artigos? Participe da nossa nova coluna “Pergunte ao Psiquiatra”! Envie um e-mail para: mauricio.psicologiasdobrasil@gmail.com, que nosso colunista Dr. Maurício Silveira Garrote terá o prazer de respondê-lo!

Maurício Silveira Garrote

Médico especialista em Psiquiatria Clínica pelo HC FMUSP (1985) e Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, com a tese "De Pompéia aos Sertões de Rosa: um percurso ao longo da Clínica Psicanalítica de pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia" (1999).

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