Hoje é quarta-feira, dia de ir à psicóloga. Para mim é mais um dia em que chego a casa às 20h, mais um dia em que tenho quatro páginas de trabalhos de casa para fazer, sem saber se os vou conseguir fazer e com medo de levar mais um recado na caderneta. Sinto-me triste e irritado porque até me esforço para tirar boas notas, mas cada vez que chego a casa estou tão cansado que já nem consigo pensar direito. Muitas vezes não percebo o exercício e acabo por pedir ajuda à minha mãe, que depois de olhar e ficar a pensar sobre o que lá está escrito, responde que não me consegue ajudar porque não percebe como se ensina a matemática de hoje em dia. Nesta altura, penso: “como faço isto?”. Já frustrado por não perceber, passam-me duas coisas pela cabeça: invento uns números para fingir que fiz as contas ou deixo os exercícios em branco. Acabo por escolher a primeira opção.

Hoje estou então, nervoso e com medo de não conseguir fazer os trabalhos todos, mas principalmente de não os conseguir fazer bem. Quando dou por mim tinha acabado de contar tudo isto à minha psicóloga, à frente dos meus pais que ficaram espantados a olhar para mim.

A minha psicóloga esteve a contar as horas que passo na escola e chegou à conclusão que passo cerca de nove horas por dia na escola. Cinco dias por semana dá um total de quarenta e cinco horas por semana. Ela disse que até compreendia que fosse importante e necessário fazer os trabalhos de casa, que servem para consolidar os conteúdos dados na aula, para desenvolver a memória de trabalho (ou lá o que isso quer dizer), esclarecer dúvidas e trabalhar a autonomia. Depois, ela disse aos meus pais que ia falar com a minha professora e colocar-lhe algumas questões importantes (vou tentar escrever tal e qual como a minha psicóloga disse):

  • “Como é que às 20h da noite uma criança consegue ter disponibilidade mental, disposição ou capacidades (e.g. raciocínio, memória, atenção/concentração) para consolidar algum conhecimento dado na aula? “
  • “A realidade é que os trabalhos para casa que a maioria dos professores manda, são as fichas do livro que as crianças estiveram a fazer todo o dia na sala de aula. Não podem as crianças fazer essas fichas no dia seguinte?”
  • “Os professores não podiam apenas escolher um dia por semana para mandar umas atividades relacionadas com a matéria dada, e depois no fim-de-semana enviavam então as ditas “fichas” ?”
  • “É um facto que a maioria dos pais não consegue ajudar os filhos com os trabalhos de casa, ou porque não têm tempo e estão cansados, ou já não se lembram, ou porque a maneira de ensinar e até os conteúdos das disciplinas de português e matemática são diferentes da forma como eles aprenderam. Vão os pais constantemente à escola pedir explicações da matéria à professora para depois poderem ajudar os filhos em casa?”
  • Ela ainda disse que ia colocar um desafio aos professores da minha escola: “Fica a questão de saber, se os professores estão dispostos a cumprir os desafios que esta nova realidade (carga horária) impõe para alcançar o sucesso escolar dos alunos. Se conseguem transformar as horas em que os alunos estão na escola, em horas de verdadeira aprendizagem e motivação, de forma a que não seja necessário tanto trabalho extra de segunda a sexta-feira. Pelo menos, só enquanto as crianças ainda estão no primeiro ciclo e só têm entre a seis a nove anos de idade.”

No fim, perguntou o que eu achava. Fiquei de boca aberta com tantas horas que passava na escola, nem fazia ideia…com tantas perguntas que ela ia dizendo aos meus pais, até me baralhei. Fiquei um pouco confuso, mas lembro-me de lhe ter perguntado se podia acrescentar mais uma pergunta. A minha pergunta é simples: Nesta vida de adulto, quando tenho tempo para ser criança?”

Joana Collaço

Psicóloga com o mestrado em psicologia educacional, formação em terapia cognitiva e comportamental com crianças e adolescentes, pós-Graduação em neuropsicologia entre outras formações. Vive em Portugal. As crónicas têm o intuito de partilhar com os pais, professores e todos os interessados, aquilo que pode ser o ponto de vista de algumas crianças/adolescentes sobre os mais diversos temas e problemas do mundo que os rodeia.

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