EDUCAÇÃO

Acompanhante terapêutico (AT) na escola

Por Christian Ingo Lenz Dunker

Os anos 1980 assistiram a renovação do pensamento brasileiro em matéria de saúde mental. Não vimos apenas a desativação dos grandes conglomerados surgidos com a modernização dos anos 1920, como Juqueri (SP), Juliano Moreira (RJ) e Barbacena (MG), mas também o fechamento das clínicas particulares onde os maus-tratos e tortura eram regra, como a Clínica Anchieta e a Doutor Eiras (de onde vem nosso atual secretário para Saúde Mental do Ministério da Saúde). Foi nessa época que começamos a estudar práticas alternativas e modelos substitutivos ao manicômio, entre eles o Acompanhamento Terapêutico (AT).

O AT encontra sua cena clínica na rua, circulando pelos lugares públicos e acompanhando as demandas do paciente “em tempo real”. No começo eram especialmente indicados para os pacientes internados há muito tempo ou afastados do convívio com os outros e que precisavam de uma mediação, ao mesmo tempo prática e “simbólica”, para realizar operações da vida cotidiana.

Depois veio o tempo em que muitos ATs eram requeridos para atender pacientes em processo de redução de dependência de drogas. Já nos anos 2000 veio o trabalho com idosos e pacientes com sequelas neurológicas. Em menos de 30 anos o acompanhamento terapêutico cobriu uma lacuna que em outros países é encampada pelo trabalhador social (social worker), pelo assistente social e pelo terapeuta ocupacional.

Em países onde o sistema de cobertura social é mais extenso e eficaz, o AT toma parte no sistema administrativo, penitenciário ou da saúde, com formação ligada fortemente ao campo da educação e reabilitação. No Brasil os ATs emergiram principalmente a partir da psicologia, compondo sua prática com fortes doses de escuta e leitura clínica.

Posso dizer que minha própria experiência como AT foi decisiva para que entrasse em contato com a realidade do sofrimento psíquico e as vicissitudes práticas do cuidado com o outro, parte essencial da formação de qualquer psicanalista.

Hoje há um novo desafio para os ATs e um novo problema para a saúde mental. A experiência da inclusão nas escolas brasileiras extinguiu o sucedâneo manicomial da educação, que eram as classes especiais. Com isso, professores e alunos devem se adaptar à presença de sujeitos com necessidades especiais em sala de aula. A presença de pessoas com síndromes e sintomas dos mais variados tipos e etiologias é um potencial ganho para os outros alunos em termos de aprendizado social.

Mas isso não se dá sem custo, objetivo e subjetivo. O ritmo de assimilação, as particularidades sensoriais e o estilo cognitivo precisam ser respeitados, por isso vem crescendo a participação de ATs. nas escolas. Eles representam também um “serviço substitutivo” à medicalização da aprendizagem e ao doping generalizado que se espalhou entre os usuários inconsequentes de Ritalina e pó de Guaraná.

Se hoje as escolas já adotam a terrível prática do “sem medicação não entra”, será que isso evoluirá para o “sem AT não entra”? Aqui a discussão promete ser longa, a começar por quem deve pagar pelos ATs?

O Estado que propôs a lei; as escolas, públicas e privadas, que devem aplicá-la; ou os pais, que querem ver seus filhos mais bem municiados nessa situação de desvantagem? Se a presença dos ATs parece uma exigência incontornável para que a inclusão funcione, que tipo de diagnóstico a justifica? Nesse caso, esta seria uma decisão pedagógica ou clínica? Perguntas em aberto para uma política de saúde mental que ainda está por ser formulada.

TEXTO ORIGINAL MENTE E CÉREBRO

Psicologias do Brasil

Informações e dicas sobre Psicologia nos seus vários campos de atuação.

Recent Posts

Como identificar e abordar as patologias tropicais mais cobradas nas provas da região Norte?

Saiba quais doenças merecem atenção e como reconhecer pistas clínicas ou epidemiológicas nos enunciados

7 dias ago

Terapia por chat: vantagens e como achar um profissional qualificado

Conheça as vantagens da terapia por chat, entenda como funciona o atendimento por mensagens e…

3 semanas ago

Curso especializado em segurança reúne equipe para elevar o padrão da formação operacional

O Instituto Doutrina Policial reúne equipe multidisciplinar com o objetivo de elevar o padrão da…

3 semanas ago

O que dar de presente para alguém que acabou de se mudar?

A mudança para um novo lar costuma marcar o começo de uma nova fase, e…

3 semanas ago

Terapia em português para brasileiros no exterior: por que o idioma pode fazer diferença

Morar fora do Brasil pode representar crescimento profissional, oportunidades e novas experiências. Mas também envolve…

4 semanas ago

Autoexclusão e limites de depósito: as ferramentas previstas na lei

Com a regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil, a preocupação com o chamado…

1 mês ago