A cada dia a humanidade descobre uma nova forma de se relacionar, somos sedentos de relação, nos relacionamos para nos desenvolver  emocionalmente e para sobreviver. O ser humano só adoece.

É a busca de completude,  de compartilhar,  de ser entendido, ouvir, aprender, desenvolver-se que faz o movimento das relações. Mas para relacionar-se é preciso vencer o medo, medo de não agradar, medo de não ter assunto, medo de não ser atraente, medo de não ser inteligente, medo de se envolver, medo de amar,  medo de se machucar, medo de não ser correspondido, medo simplesmente de não ser aceito, medo da violência, medo da humanidade…medo.

A sociedade tem medo. Assaltos, sequestros, abusos sexuais assassinatos, são as manchetes de todos os dias. A sensação de desproteção e fragilidade invade nossas vidas e vai fechando as pessoas em suas casas, em sua vida pessoal, em sua cada vez mais escassa e seleta rede de relacionamentos. Solidão se confunde com proteção e algumas vezes é sinônimo de clausura. O solitário é aquele que escolhe a solidão, não importa o motivo, para ele a solidão é uma opção, é diferente daquele que se sente só, ser só traz consigo a sensação de abandono e de não ser  importante, não fazer falta. O solitário abandona o mundo e o só sente que nunca foi acolhido. Na verdade são faces da mesma moeda.

Dentro deste cenário surge nossa querida e ágil Internet. Em instantes podemos falar, trocar idéias e conhecer pessoas, supostamente protegidos pela tela de nossa máquina. Resgata-se quase como mágica a possibilidade de relacionar-se sem medo, e aí a imaginação toma conta. Como em um conto de fadas, no mundo virtual, tudo pode, alguns chegam a mentir sobre quem são ou como são, mandando fotos provavelmente de como gostariam de ser, talvez mais altos, mais magros, mais belos, mais ricos, mais sábios… na verdade criam suas imagens idealizadas e perfeitas. Será que voltamos aos namoros por cartas de décadas atrás?

Criar um mundo imaginário é muito fácil desta forma. Pessoas se conhecem, namoram e até fazem sexo  virtualmente. O objetivo aqui não é recriminar esta prática, acredito que  como  forma de relação humana ela pode ser positiva ou negativa, depende de como e porque é usada. A Internet é uma excelente ferramenta de pesquisa, e como tal pode ser útil até mesmo no campo dos relacionamentos pessoais e afetivos, facilitando o acesso a alguém que você dificilmente conheceria de forma convencional, ou mesmo demoraria mais para conhecer. O problema começa quando esta prática substitui por completo o relacionamento “ao vivo e a cores, com direito a percepções e sensações”, tornando-se uma forma de se esconder, ou de não lidar com as próprias  inseguranças.

É possível Amar virtualmente? Acredito que apaixonar-se sim, amar talvez seja mais difícil. Amar implica em conhecer o outro em aceitá-lo e ser aceito, com todas as qualidade e defeitos, o “pacote completo”.

O ser humano é mais do que suas palavras, ele é também atitude,  tom de voz, ritmo, expressão, espontaneidade e criatividade  interagindo dinâmicamente. O que falta nas relações virtuais é o mesmo que faltava nos relacionamento por carta e nos “amores platônicos”, falta o “olho no olho” e a fala articulada com a expressão de todo o corpo que concede a credibilidade àquele que escutamos. E falta principalmente o toque, como expressão de carinho e fonte de prazer, isso não será jamais substituído.

Antes a vida que o medo, não importa o meio de comunicação, importa a relação que você faz e com quem você se comunica.

Não importa se o outro mente ou não, importa o quanto você deseja ouvir aquelas mentiras…

Não importa a realidade em que você vive, mas a ilusão da qual você não quer participar…

Ensaie à vontade pela Internet, mas tente, ouse, se proponha a vencer suas dificuldades de relacionar-se, sua timidez e procure relações ao alcance de suas mãos e de seus olhos.

 

Sirley Bittu

Psicóloga Especialista Clínica, Psicodramatista Didata e Supervisora. Terapeuta em EMDR pelo EMDR Institute/EUA.

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