RELACIONAMENTOS

Existem dois tipos de vício em amor – e os dois fazem mal

Por Ana Carolina Leonardi

Que o amor pode funcionar como uma droga, você já deve ter ouvido falar. Apaixonados experimentam euforia e aquela ânsia quase descontrolada pela presença da outra. Em algumas pessoas, isso vira dependência, gera abstinência e torna o ciclo todo difícil de romper. Uma série de pesquisas já analisou a relação entre amor e vício. Mas ao revisar 64 estudos sobre o tema, o Centro de Neuroética de Oxford encontrou não apenas um, mas dois tipos de Adicção ao Amor, com características bem diferentes.

O primeiro é a obsessão clássica, mais intensa e aguda. É o tipo de sentimento que réus de assassinatos passionais alegam ter: o amor que leva a pensamentos e comportamentos obsessivos impossíveis de ignorar. No cérebro, o que parece acontecer é uma enchente de dopamina, similar ao efeito de algumas drogas, que cria um desejo irrefreável de repetir a sensação.

Esse é o tipo de vício mais gritante, a que os pesquisadores deram o nome de “adicção restrita”. Mas, na sua revisão de outros estudos, os cientistas encontraram o que chamaram de “vício amplo”.

Nesse caso, o apego ansioso está presente, a falta do parceiro também causa pensamentos de desespero. Mas, ao contrário do grupo anterior, essas sensações estão dentro do limiar que a pessoa é capaz de controlar. A vontade de dedicar-se completamente àquele sentimento está lá, mas consegue ser equilibrada com os outros interesses e obrigações do indivíduo.

Essa variação também reflete o padrão do uso de drogas na população. É claro que existem as pessoas com vícios completamente debilitantes. Mas as dependências mais comuns são, logicamente, as mais acessíveis. Milhões de pessoas com rotinas socialmente aceitáveis e interesses variados se encaixam na definição de “adictas” quando se trata de álcool e cigarro. O segundo tipo de vício em amor seria equivalente a este model.

Nem todos os cientistas concordam com a conclusão do estudo. Lucy Jones, uma das primeiras pesquisadoras a notar a semelhança do amor e do vício em drogas, está entre eles. Segundo falou à New Scientist, o modelo “amplo” faria parte de toda relação amorosa. Essa dependência química do amor teria origem evolutiva: seria a forma da natureza de nos forçar às relações românticas e ao sucesso reprodutivo.

Mas, para a pesquisa de Oxford, mesmo o tipo mais brando de vício em amor não pode ser considerado normal. Isso porque ele pode ajudar a explicar porque algumas pessoas tem tendências maiores a seguir cultos, se envolver com grupos fundamentalistas e até comportamentos muito mais simples, como a dificuldade de abandonar relações abusivas. E reconhecer melhor este tipo mais discreto de adicção sentimental pode ser a chave para quebrar esses ciclos destrutivos.

Imagem de capa: Shutterstock/Eakachai Leesin

TEXTO ORIGINAL DE SUPERINTERESSANTE

Psicologias do Brasil

Informações e dicas sobre Psicologia nos seus vários campos de atuação.

Recent Posts

Telas que Aprisionam: Os Impactos Silenciosos dos Jogos Online na Saúde Mental dos Adolescentes

A adolescência sempre foi marcada por intensas transformações biológicas, buscas de pertencimento e inseguranças emocionais.…

1 semana ago

Como identificar e abordar as patologias tropicais mais cobradas nas provas da região Norte?

Saiba quais doenças merecem atenção e como reconhecer pistas clínicas ou epidemiológicas nos enunciados

3 semanas ago

Terapia por chat: vantagens e como achar um profissional qualificado

Conheça as vantagens da terapia por chat, entenda como funciona o atendimento por mensagens e…

1 mês ago

Curso especializado em segurança reúne equipe para elevar o padrão da formação operacional

O Instituto Doutrina Policial reúne equipe multidisciplinar com o objetivo de elevar o padrão da…

1 mês ago

O que dar de presente para alguém que acabou de se mudar?

A mudança para um novo lar costuma marcar o começo de uma nova fase, e…

1 mês ago

Terapia em português para brasileiros no exterior: por que o idioma pode fazer diferença

Morar fora do Brasil pode representar crescimento profissional, oportunidades e novas experiências. Mas também envolve…

1 mês ago