Por Jana Viscardi

Compaixão é uma palavra que vem, aos poucos, ganhando mais espaço em textos e conversas sobre a vida no trabalho. A compaixão que conhecemos está, no entanto, associada a grandes feitos da humanidade, representados pelas atitudes de Madre Tereza de Calcutá, Gandhi ou Buda. Há sempre um herói a resgatar, e este herói, em geral, não somos nós, mas este outro extraordinário que pratica o bem, sem olhar a quem. Uma aura de heroísmo e distanciamento reveste, pois, o conceito de compaixão. Neste texto, procurarei mostrar que a compaixão pode ser praticada corriqueiramente, em um sentido bastante mais ordinário, o que tornaria nossas vidas mais simples e, certamente, menos angustiantes.

Vejamos um exemplo: a comunicação move nosso cotidiano. Do momento em que despertamos ao momento em que vamos dormir estamos, o tempo todo, nos comunicando. A pergunta é “Como estamos nos comunicando?”. Se me permite, vou trazer já uma resposta para você: aos trancos e barrancos. Inúmeros são os relatos de pessoas que se sentem desrespeitadas no trabalho pela fala de seus colegas. Seja pela piadinha na hora do almoço, pela indireta no meio de uma reunião e no “toque” de um colega, que decide expor a opinião sobre você, muitas das comunicações cotidianas vêm enviesadas, tortas mesmo. Ofendem, machucam, estressam, esgotam. Mas, por estarem tão corriqueiramente presentes, engolimos a seco. Remoemos depois. Em geral, sozinhos, frustrados, aborrecidos, irritados.

Concluí recentemente uma formação em Mediação de Conflitos Organizacionais pelo Instituto Ecosocial, IMO Brasil e TRIGON Entwicklungsberatung* e, durante a formação, muito se falou sobre comunicação. Boa parte dos conflitos surgem justamente pelas “falhas” na articulação das informações entre colegas de trabalho. Entre métodos e teorias, destaco – e simplifico – uma das ideias que me chamam a atenção: os julgamentos que nos acompanham ao nos comunicarmos com nossos interlocutores são elementos que nos lançam ao conflito. E, além disso, a muitas insatisfações no trabalho e a incontáveis irritações cotidianas. São gestos inicialmente “bobos” que inflamam os ânimos, geram grande desconforto e muito constrangimento velado.

Talvez você ouça: “Ai, não se pode mais dizer nada, todos estão cheios de melindres”. Eu digo a você, não são melindres. Em um ambiente cada vez mais movido pela agilidade, pela pressa e eficiência constante e, muitas vezes, sem tempo para gentilezas e leveza, as palavras importam. E muito. Se seu colega fez ou disse algo que o incomodou, ao invés de lançar-se pelo caminho das indiretas e piadas, sugiro a você abandonar os julgamentos e dizer, da sua perspectiva, o que o incomodou. Objetivamente.

E eis aqui a pegadinha: é difícil fazê-lo porque, em geral, depositamos no outro a culpa de nossos problemas. Quantas vezes você deu sequência a uma conversa dizendo algo como “ah, mas você nunca escuta ninguém nas reuniões”. Em cada momento que se der conta de uma acusação como essa, procure refazer seu raciocínio olhando para você, não para o outro: “eu me sinto incomodado quando (sinto que) não sou ouvido”.

Deslocar o olhar do julgamento do outro para a análise e expressão de seus sentimentos e necessidades redimensiona o campo da interação. E seu interlocutor deixa de se sentir ofendido e constrangido.
Eu sei, não é simples. E você ainda pode me perguntar: e a compaixão, onde ela se encaixa nisso tudo? Pois bem, atentar para a comunicação é reconhecer que há dois ou mais sujeitos envolvidos nesse processo interativo. E, se você se dispuser a verdadeiramente reconhecer a existência dessas pessoas, você observará que muitas palavras (ou tópicos) sem qualquer relevância para você são extremamente impactantes para o outro.

Fazer desse exercício uma prática constante levará você a se comunicar de maneira mais sensível aos contextos, considerando não apenas suas necessidades e sentimentos, mas também a daqueles que estão no seu entorno.

Este é o mundo do trabalho em que me parece mais palatável viver. E não é preciso ser Madre Tereza para fazê-lo acontecer. O que você me diz?

* Curioso sobre o curso? Segue o link: http://www.ecosocial.com.br/index.php/cursos/formacao-de-mediadores-organizacionais/

** Este texto não é patrocinado tampouco contém propaganda. As informações sobre o curso refletem apenas a explicitação de parte de minha trajetória.

Jana Viscardi

Doutora em Linguística pela UNICAMP, Jana Viscardi sempre viu na linguagem o caminho para a disseminação de conhecimento e a busca por um mundo de maior compaixão e empatia. A partir de sua experiência tanto acadêmica quanto organizacional, atua hoje como consultora em linguagem, comunicação e conflitos em organizações e instituições de ensino. É criadora do canal do Youtube "Jana Viscardi", em que fala sobre temas relacionados à comunicação no ambiente de trabalho.

Recent Posts

Psicologia do trading forex: o segredo por trás da disciplina e dos lucros consistentes

Quando você entra no mercado de câmbio com a intenção de ganhar dinheiro, suas emoções…

1 dia ago

Relações abusivas nem sempre parecem abusivas — alerta a psicóloga Josie Conti

Relações abusivas nem sempre são óbvias. Entenda como o abuso psicológico se disfarça e por…

1 semana ago

O acúmulo invisível: como microtraumas cotidianos podem comprometer sua saúde emocional

Pequenas experiências do dia a dia podem se acumular e gerar sofrimento emocional. Entenda o…

3 semanas ago

Divulga Mais Brasil esclarece: empresa de Ribeirão Preto não tem ligação com a Guia Divulga Mais Brasil

A Divulga Mais Brasil, empresa sediada em Ribeirão Preto (SP), esclarece ao público, a parceiros…

3 semanas ago

Não é apenas mau-caratismo: Se alguém ao seu redor mente o tempo todo, ela pode sofrer deste transtorno mental específico

Mentir de vez em quando, por medo, vergonha ou para escapar de um constrangimento, está…

4 semanas ago

Se ele usa qualquer uma dessas 5 frases na discussão, o problema pode ser mais sério do que você pensa

Nem sempre o problema aparece como algo evidente. Em muitos relacionamentos, o desgaste começa em…

1 mês ago