Partiu cedo. A vida, estranha e deliciosa como ela só, não perguntou se estava na hora. Ele nem havia lido esses livros que falam sobre partidas “verdes”, dessas que parecem não ter amadurecido. Talvez tivesse tido tempo para compreender sua própria viagem. Tinha sonhos, como todos nós temos, mas os dele não estavam esquecidos, esperava a faculdade, esperava ter um filho com o seu amor, sim, estava naquela idade em que o amor escolhido parece pra sempre.

Deixou as gavetas desarrumadas, cheia de bilhetes, ingressos de shows. Deixou os calçados espalhados pelo quarto, pensou que voltava, que as bagagens não precisariam ser arrumadas, afinal, a morte parecia residir tão longe, nem sabia como localizá-la no mapa…

Contrariando todas as grandes miudezas que perfazem tão lindamente essa idade, deu um beijo na mãe e saiu, sorrindo, porque era assim que namorava a vida, sorrindo. Não retornou, não disse adeus.

A dor chegou, a dor explodiu na casa, no quarto, na varanda, Senhor, a dor era tão intensa que, em alguns momentos, não cabia nos livros, não cabia no coração. Quem ficou procurou respostas, perguntou para os que estavam por perto, para os que estavam longe, sim, como se houvesse explicação para essa noite no seu dia, para dias tão frios com tanto sol, afinal, era cedo demais.

Era tanto sofrimento, que simbolizavam a própria dor, ainda assim a vida seguiu, apesar da dor, apesar do amor, apesar do vazio. Sentiam um descontentamento, daqueles que os olhos vazam as paredes, daqueles que a comida não tem sabor, daqueles que as pessoas falam, mas não há som.

O amor, intenso, delicadamente, pediu licença para se misturar à dor. No meio da dor lembraram-se dos sonhos esquecidos, no meio da dor lembraram-se do filho, do namoro que ele mantinha com a vida, sorrindo. Sentiram paz, apesar da dor. Sentiram alegria, apesar da dor. Sentiram tanto amor que agradeceram pela estadia, agradeceram a memória: da voz, do jeito de andar, das histórias vividas, das músicas que ele ouvia, dos tênis e roupas espalhados pela vida, dos amigos que haviam passado por ali, das fotografias. No meio da dor, lembraram-se do sorriso do filho.

Todas essas memórias viraram alimentos, Senhor, daqueles que enchem o coração e a alma. Alimentados com as lembranças mais doces desse filho, juntaram os sonhos esquecidos e pegaram uma carona com a vida… chorando, mas sorrindo…

Teresa Gouvea

Psicóloga Clinica Especialista em Família pela PUC SP, especialista em Luto pelo 4 Estações Instituto de Psicologia SP.

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